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Entrevista para Luiz Felipe Reis

Dessa maneira mantê-la como um símbolo feminista, implica em não aceitarmos nem as antigas continuações da peça nem as novas que a reinserem dentro de casa ou a tornam infeliz, amargurada e culpada por ter tido a coragem de afirmar-se como sujeito. A Nora precisa manter-se viva fora de casa, ali naquele exato momento após a batida da porta e antes de sua entrada no mundo como indivíduo. Como entrar como indivíduo no mundo? E que mundo é esse em que entramos? Esse fora é o potencial de mudança e transformação, é o exercício de imaginar novas possibilidades, novos espaços para então materializá-los.

 

Por Diana Herzog

Logo antes da nossa estreia dei uma entrevista para o jornalista Luiz Felipe Reis, editor da coluna de teatro do Segundo Caderno do Globo. Foi uma delícia poder pensar novamente na pesquisa, mas dessa vez refletindo sobre o trabalho concluído e prestes a ser compartilhado com o mundo. O Luiz Felipe fez várias perguntas instigantes e eu me animei, mas como hoje o espaço de um jornal é muito limitado, só um pedacinho da entrevista foi publicado, o resto ficou pra nós dois.

Esse post é então o compartilhamento dessa conversa que levanta vários temas importantes para que continuemos pensando o feminismo, a mulher e o homem no mundo, e como muito ainda precisa ser transformado.

Luiz Felipe: “Casa de bonecas”, como você diz, é um dos textos mais continuados da história, já que Ibsen “finaliza” a peça com a saída de Nora, mas deixa algo em aberto, por conta das reticências. Isso gerou uma série de releituras e continuações. Você utiliza, além do texto original de Ibsen, uma outra versão para última cena, escrita pela Eleanor Marx e pelo Israel Zangwill. O que há de singular nessa reescrita deles? E como você interpretaria esse gesto do próprio autor? 

Captura de Tela 2016-07-04 às 16.44.23Diana: Eles fazem uma nova versão para última cena da “Casa de Bonecas”. Essa versão mantém mais de 50% do texto original, o que ocorre é que na verdade a Eleanor e o Israel de maneira simples e brilhante, invertem as falas de Torvald e Nora, o que produz  um efeito impactante, que evidencia o olhar retrógrado e ridículo presente nas críticas negativas que conferem à Nora um caráter egoísta, narcisista, histérico e inverossímil.  A versão é espirituosa e inteligente. Marx e Zangwill respondem a cada crítica negativa com humor, porque as falas, quando os papéis se invertem, soam absurdas, sendo capazes de fazer ressoar toda a camada moralista e machista presente em cada comentário negativo a respeito da personagem, da história e de Ibsen. Vale lembrar que essa versão não foi escrita para ser montada, e sim como uma crítica aos críticos da Nora e do Ibsen. Inclusive tivemos dificuldade com isso na hora de levar para a cena. Inicialmente eu tinha pensado em fazer um corte e levantar como cena mesmo. Mas ela é complicada, porque é mais para ser lida. Trabalhamos muito e na montagem entraram três trechos costurados por três críticas da época. Além da cena, eles escreveram um prólogo também, super sarcástico, como se tivessem corrigindo o texto do Ibsen com as próprias palavras do Ibsen, e que seria então melhor do que o original. E que agora todos poderiam ficar tranquilos. Enfim. Se quiser posso te enviar alguns trechos pra você entender. É engraçado, na verdade é surreal. Eu acho o Ibsen brilhante quando ele opta por terminar com o som da batida da porta, é uma maneira de não despontencializar a ação da Nora ao sair de casa. O ato simbólico, transgressor permanece.  Dessa maneira mantê-la como um símbolo feminista, implica em não aceitarmos nem as antigas continuações da peça nem as novas que a reinserem dentro de casa ou a tornam infeliz, amargurada e culpada por ter tido a coragem de afirmar-se como sujeito. A Nora precisa manter-se viva fora de casa, ali naquele exato momento após a batida da porta e antes de sua entrada no mundo como indivíduo. Como entrar como indivíduo no mundo? E que mundo é esse em que entramos? Esse fora é o potencial de mudança e transformação, é o exercício de imaginar novas possibilidades, novos espaços para então materializá-los.

“Então a batida da porta entra como uma necessidade, a porta precisou bater lá em 1879, para que hoje eu possa estar aqui falando com você sobre esse assunto, a porta precisa continuar batendo para que nós mulheres possamos ocupar as ruas, para que nós mulheres possamos ganhar voz, ter voz e principalmente manter a voz. Porque a perda de voz e espaço podem acontecer de um dia para o outro. Já a conquista leva anos.”

 

Luiz Felipe: A emblemática saída porta afora de Nora é re(a)presentada, desconstruída ou reinventada pela sua dramaturgia/montagem de que forma? 

Diana: Na verdade a batida da porta é a base da peça. A saída da Nora. A tomada de voz dela, a percepção dela como pessoa é o que norteou a pesquisa e agora o resultado da mesma. A tentativa foi primeiro revelar a batida como uma transgressão cultural que diz respeito ao papel da mulher – a mulher não mais colada a figura da mãe, da esposa, da cuidadora, passiva, frágil, dama, e sim a mulher antes de qualquer coisa, pessoa. Então o trabalho que tentei fazer foi deslocar a percepção da Nora como a mãe que abandona seus filhos – “abandonadora de lar”. É realmente um elogio à ela, uma defesa e uma homenagem à ela como um símbolo importante feminista que vem atravessando o tempo – ela tem 136 anos. Então a batida da porta entra como uma necessidade, a porta precisou bater lá em 1879, para que hoje eu possa estar aqui falando com você sobre esse assunto, a porta precisa continuar batendo para que nós mulheres possamos ocupar as ruas, para que nós mulheres possamos ganhar voz, ter voz e principalmente manter. Porque a perda de voz e espaço podem acontecer de um dia para o outro. Já a conquista leva anos. É só ver que hoje homens ainda decidem o que nós mulheres fazemos ou não com nosso corpo. Algo que pra mim me soa muito doido, muito mesmo, inacreditável. Quer dizer, tem muita coisa pra conquistar ainda. Só pra deixar claro, o Ibsen não quer que mulheres abandonem seus filhos, sua casa. A discussão não é essa, e sim de que maneira é que mulheres até então tem ocupado o espaço social. E como obra artística, como personagem, Nora precisa ultrapassar as barreiras culturais pra que possamos enxergar a construção de uma estrutura patriarcal. A intenção dele, segundo ele, é criticar a tradição do casamento, e questionar esse combinado entre homem e mulher, um combinado para ele baseado em hipocrisia e representação de papeis. É bom lembrar que a Nora foi criada a partir de uma historia verídica. Uma discípula do Ibsen, Laura, uma escritora (profissão que pra época já é uma transgressão em si, mulheres ricas não trabalhavam, né, e mulheres em geral jamais poderiam ser artistas, gênios, mestres, isso era coisa para os homens, eles eram os iluminados, pensamento que existe ainda hoje, só ver quem são considerados os grandes mestres da pintura), falsifica uma assinatura para pegar um empréstimo (mulheres não podiam pegar empréstimos) e salvar a vida do seu marido, que estava hipertenso precisando tirar ferias. É a mesma história da Nora, o que muda é o final. Quando o marido da Laura descobriu, ele a internou num manicômio por alguns meses, e depois ela ficou sem ver seus filhos por anos. Ele a proibiu de ver os filhos. Quer dizer, a mãe foi separada dos filhos e tudo bem, tudo aceito, afinal a decisão foi tomada por um homem, né. O Ibsen, que nem o marido de Laura, também separa mãe dos filhos, mas por decisão e tomada de consciência da mulher, da Nora. É muito importante isso. Mulheres na época que fugiam do padrão, que não reproduziam “feminilidade” eram diagnosticadas como histéricas e então internadas. Por isso Nora diz que “está mais lúcida do que nunca”, quando decide ir embora. Isso tudo pra dizer, que a porta para a Nora precisa bater, ela precisa servir de símbolo para mulheres, para que também possamos ter uma tomada de consciência. 

Luiz Felipe: E como você observa esse gesto/ato de Nora no contexto da peça original de Ibsen? Como você interpreta o gesto de Nora no tempo em que a obra foi escrita? Havia, naquela época, mais uma expressão de luta por emancipação individual, “independentemente” do gênero — se é que se pode falar isso , ou mesmo na época de Ibsen a noção de emancipação do feminino e ruptura com o patriarcado já podia ser claramente detectada? 

“E temos muito caminho pela frente, muito espaço para ganhar que é nosso, que tem a ver com nossas escolhas e nossas vidas, que são várias, de várias origens, classes, raças, não é um plano, uma mulher, um movimento feminista. É uma multiplicidade de vozes, e essa compreensão e realização talvez seja nosso grande poder de mudança de paradigma e transgressão.”

 

Diana: No contexto original da peça foi uma transgressão total, impensável. Foi considerado um horror, monstruoso. Mulheres não tinham espaço, não podiam quase nada. Mulheres de uma classe social mais alta. Porque, já mulheres mais pobres, precisavam trabalhar, deixavam os filhos pra ajudar a pagar as contas, e ok. Não era um problema. Inclusive, o Ibsen levanta essa questão e a Eleanor escancara. A Nora teve uma babá que cuidou mais dela do que dos próprios filhos. E a Eleanor escreve, que as amas que deram de mamar para os filhos da personagem, não deram de mamar para os próprios filhos e tudo bem. De acordo com Joan Templeton (estudiosa de Ibsen, autora do livro “Ibsen’s Women”), enquanto, na época, mulheres escritoras imaginavam suas personagens se desvencilhando de seus filhos, família, casa e marido através de sonhos e devaneios, Ibsen criou uma personagem que deixa sua casa com a mais absoluta consciência de seu ato. Através do som da batida da porta o autor foi capaz de comunicar a força e concretude de sua saída. Templeton acredita que somente um homem poderia naquele momento escrever a história de Nora: “Talvez, em 1879, apenas um homem poderia imaginar tal liberdade.” Penso que naquele momento histórico as mulheres podiam sim imaginar uma personagem descolando-se de seus papéis culturais, mas somente um homem podia escrever e ter a cena representada tal qual escreveu. Mesmo Ibsen sendo um homem e artista respeitado, ter a cena representada tal qual escreveu não foi fácil, pelo contrário, Ibsen foi acusado e desqualificado pelos críticos como poeta e Nora como personagem. Quando Ibsen fala que a sociedade contemporânea (final de século XIX), é uma sociedade exclusivamente masculina, com leis passadas por homens, e juízes que julgam mulheres a partir de seus próprios pontos de vistas, isto é, o ponto de vista do homem; Eu olho à minha volta e encontro-me inserida numa sociedade patriarcal, onde o homem ainda é o centro, o que detém o discurso dominante.  Quer dizer a Nora ainda é muito importante hoje. 

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Matéria do Luiz Felipe Reis no Segundo Caderno

Luiz Felipe: Nora transgrediu regras e pactos sociais. Hoje, que gesto ou ação feminina poderia ser considerado um ato de ruptura similar ao de Nora? Que atos das mulheres de hoje seriam transgressões paralelas ao ato de Nora? O que faria uma mulher de hoje ser Nora, nesse sentido? O que seria uma transgressão social, hoje? Quais são as portas a se abrir e atravessar?

Diana: Essa foi a pergunta da minha monografia. Foi o meu primeiro interesse, entender quem seriam as Nora hoje e de que maneira é possível traçar um paralelo entre a sua transgressão em 1879 e hoje 2016. E eu não consegui responder, na verdade, acabei levantando mais questões. Algumas das questões que fecharam minha monografia: 

“Quem seriam as Noras hoje? Seria a Nora hoje uma mulher que conseguiu igualar-se ao homem, se é que isso é possível ou mesmo desejável? O que acontece depois que Nora bate a porta? Qual o espaço da mulher hoje? Mulher independente trabalhando é sinônimo de igualdade? Mulher em casa cuidando dos filhos é uma atraso para as conquistas feministas? Como saber a diferença entre o que achamos que queremos e o que de fato queremos? Sabemos o que queremos? Quais são os caminhos para transformação? Como transitar entre o dentro e o fora? Entre a margem e o centro? Quais são as brechas e fendas dentro das instituições? Como ocupá-las? Como enxergá-las se são invisíveis? O que é ser feminina? Como reproduzimos feminilidade? O que o nosso corpo nos diz a respeito dessa condição, como podemos percebê-lo como produto cultural? A Nora ainda permanece um símbolo?”

Pensar a Nora como símbolo é importante, pois a medida que entendo mais claramente a necessidade de sua posição, entendo também que não posso querer encontrá-la entre mulheres de carne osso. Não posso definir uma qualidade Nora, não posso reduzi-la, porque como símbolo ela permanece intacta e transgressora após a batida da porta, de forma à servir de inspiração e exemplo para que nós mulheres continuemos ou iniciemos à questionar o nosso entorno e o sistema vigente que não nos enxerga, nem nos ouve. Nora definida perde sua importância e complexidade. Também é injusto comparar uma personagem com mulheres que continuam vivendo depois de uma transgressão. Acho que imaginarmos uma mulher de carne osso, batendo a porta diante da mesma situação e continuando a sua vida depois, de uma maneira ou de outra essa transgressão acaba diluindo no tempo, porque estamos todos dentro de uma mesma cultura, e é dentro dela que criamos e mantemos relações. Não é possível uma ruptura absoluta, e o Ibsen quando deixa Nora do lado de fora da porta, sem continuação ele consegue manter a ruptura como absoluta. Mas o que eu percebi, é que ao montarmos pequenas ilhas de conversa, com mesinha, biscoitinho, café,  pudemos ouvir historias, as mulheres entrevistadas puderam refletir sobre suas vidas, escolhas, conceitos e opiniões, e que isso em si é uma transgressão. Afinal são mulheres exercendo o ato da fala, e isso historicamente é muita coisa. Acho que transgressão social hoje e todo esse momento da primavera das mulheres – o #primeiroassédio, #belaerecatadadolar, as passeatas contra cunha – são atos que estão ligados diretamente ao ato da Nora, que Nora, como outras personagens que também são símbolos feministas, tem uma responsabilidade nessa mudança que hoje vivemos. Porque lá atrás essas personagens existiram, inspiraram mulheres, essas mulheres se juntaram, e começaram a reinvidicar voz, e hoje eu posso ir pra rua junto com outras mulheres. Eu posso me perceber como pessoa e questionar o meu entorno. E temos muito caminho pela frente, muito espaço para ganhar que é nosso, que tem a ver com nossas escolhas e nossas vidas, que são várias, de várias origens, classes, raças, não é um plano, uma mulher, um movimento feminista. É uma multiplicidade de vozes, e essa compreensão e realização talvez seja nosso grande poder de mudança de paradigma e transgressão. 

“Então é isso, a Nora precisa bater a porta pra que um dia mulheres possam já nascer sem se ver no lugar da passividade, receptividade, objetificação. Você me pergunta sobre as funções, bom, acho que a ideia de que a mulher é mãe, independentemente dela ter ou não filhos, está diretamente ligada a objetificação da mulher. A passagem de objeto para a pessoa, resignifica o entorno e dilui papéis pré-estabalecidos, essas funções podem então ser desvencilhadas da mulher.”

 

Luiz Felipe: Nora desconstrói a mulher enquanto papel social — mãe, esposa, e ajuda a construir a mulher enquanto indivíduo. Em vez de cumprir um papel social, ela passa a criar/inventar um papel para si. Como avalia esse gesto de ruptura com o “cumprir” funções e a guinada ao “criar” ações? Hoje, que funções a mulher precisa se desvencilhar e que ações ela precisa criar?

Diana: Acho que é um gesto empoderador. Conseguir deixar de reproduzir em algum grau, deixar de cumprir, deixar de ter que ser para começar estar, agir, criar, acho que é dos caminhos mais interessantes que podemos escolher. Talvez não seja o mais fácil, mas é isso, a Nora não está preocupada com o caminho mais fácil. Acho que quando se tem um “insight”, uma tomada de consciência, não avaliamos os prós e contras, não paramos pra pensar os obstáculos, simplesmente percebemos que não é mais possível viver do mesmo jeito, e mudamos de rumo, sem garantias.  A Nora se pergunta: como ela pode ser mãe, se não sabe nem quem é. A ideia não é que nós mulheres, depois da Nora, devemos começar a largar nossos filhos para entender quem somos. Mas sim, que esse ato de perceber que somos pessoas, que temos vozes, que somos importantes, que pensamos, é necessário e precisa acontecer antes mesmo de nascermos. É muito louco pensar que eu mulher, preciso tomar consciência e começar a me desvencilhar da ideia de objeto, afinal cresci sem nem me perceber objetificada e por conseqüência me objetificando. É muito louco pensar que isso acontece só com as mulheres. Então é isso, a Nora precisa bater a porta pra que um dia mulheres possam já nascer sem se ver no lugar da passividade, receptividade, objetificação. Você me pergunta sobre as funções, bom, acho que a ideia de que a mulher é mãe, independentemente dela ter ou não filhos, está diretamente ligada a objetificação da mulher. A passagem de objeto para a pessoa, resignifica o entorno e dilui papéis pré-estabalecidos, essas funções podem então ser desvencilhadas da mulher. 

“É importante também lembrar que não podemos falar por mulheres, não podemos reduzir mais do que metade da população do mundo em Mulher de M maiúsculo. Porque é isso, somos mais da metade, somos muitas, de diversas origens, classes, culturas, cores, vivências, experiências. Eu não posso falar por mulheres, posso de alguma forma achar pontos de conexão, mas mesmo assim é complexo. Então ir para as ruas ouvir diferentes vozes, conectar essas vozes com as nossas e claro com a história da Nora é um caminho que eu considero interessante, porque não reduz, parte do singular, do pequeno, deixando que as conexões sejam feitas pelo olhar de cada espectador.”

 

Luiz Felipe: Por que foi importante coletar depoimentos de mulheres nas ruas? De que modo esse material é usado em cena, e que tipo de reflexões ele suscita?

P1070651Diana: A ideia inicial era tentar descobrir quem seriam as Noras hoje. Entrevistamos algumas mulheres que por diferentes motivos, pensamos poder ser uma Nora. Mas depois de assistirmos algumas entrevistas, percebemos, como já mencionei acima, que comparar a Nora com mulheres de carne e osso, não era interessante, não fazia sentido, não era justo. Sentimos então, a necessidade de ouvir vozes e historias, que nos situassem, que de alguma forma poderiam nos inspirar. Fomos então para as ruas, sem saber o que aconteceria, quem apareceria. Não foi algo super pensado, foi algo que o próprio processo naquele momento nos indicou. O processo sabe muito mais do que eu, isso é coisa que já aprendi como atriz faz tempo. Fomos para as ruas, e foi lindo, ouvimos vozes e conhecemos historias, nos identificamos, pudemos lançar um olhar de volta para nós mesmas, e também para a Nora. E foi enquanto eu escrevia a minha monografia que entendi, e percebi que estarmos na rua exercitando o ato da fala e da escuta, no caso nós exercitamos o ato da escuta e as entrevistadas da fala, e isso é em si uma transgressão, uma transgressão que está diretamente ligada a batida da porta de Nora. Porque ela bateu a porta em 1879, nós estávamos ali ouvindo, e mulheres estavam ali falando. E é incrível, como a maioria das mulheres que ouvimos queriam falar, queriam ser ouvidas, algumas nos disseram isso, outras revelaram segredos que nunca haviam contado, e ainda vimos algumas tendo insights ali na hora. É importante também lembrar que não podemos falar por mulheres, não podemos reduzir mais do que metade da população do mundo em Mulher de M maiúsculo. Porque é isso, somos mais da metade, somos muitas, de diversas origens, classes, culturas, cores, vivências, experiências. Eu não posso falar por mulheres, posso de alguma forma achar pontos de conexão, mas mesmo assim é complexo. Então ir para as ruas ouvir diferentes vozes, conectar essas vozes com as nossas e claro com a história da Nora é um caminho que eu considero interessante, porque não reduz, parte do singular, do pequeno, deixando que as conexões sejam feitas pelo olhar de cada espectador. Busquei levantar questões ao invés de defini-las, até porque eu mesma tenho muitas dúvidas e certamente se daqui um ano olhar para isso tudo que eu acabei de escrever talvez discorde. Isso acontece quando olho para o que fiz na pesquisa ano passado, e isso é lindo, porque a transformação é constante. Acho que a única coisa que realmente defino é a importância da Nora como símbolo feminista, como símbolo de mudança, e é ela ou o símbolo dela que vem me norteando desde 2007.

“O que você entende por feminino e masculino?” foi uma pergunta que fizemos não só as nossas entrevistadas, mas também a pessoas aleatórias, desde amigos a desconhecidos nas ruas. E as respostas são muito similares, o feminino é sempre ligado à mulher que é sempre ligada à fragilidade, passividade, inferioridade, receptividade, irregularidade, desconfiança… e o masculino sempre à força, constância, confiança, atividade, superioridade, ação… E as respostas sempre justificam-se através das diferenças biológicas entre mulheres e homens. Isso tudo nos incomodou muito, e acabamos falando muito sobre isso.”

 

Luiz Felipe: Como o projeto aborda e lida com os clichês e estereótipos do feminismo e do “feminino” em cena?

Diana: Esse ano estamos tocando menos nesse assunto, quer dizer, é claro que ele está presente, mas ano passado acho que a percepção geral do que é feminino e masculino foi um grande norte. “O que você entende por feminino e masculino?” foi uma pergunta que fizemos não só as nossas entrevistadas, mas também a pessoas aleatórias, desde amigos a desconhecidos nas ruas. E as respostas são muito similares, o feminino é sempre ligado à mulher que é sempre ligada à fragilidade, passividade, inferioridade, receptividade, irregularidade, desconfiança… e o masculino sempre à força, constância, confiança, atividade, superioridade, ação… E as respostas sempre justificam-se através das diferenças biológicas entre mulheres e homens. Isso tudo nos incomodou muito, e acabamos falando muito sobre isso. Mas esse ano, já com mais tempo de pesquisa, e com mais tempo para pesquisar, resolvi que nosso norte seria apenas a Nora. E foi isso, a cena que havia planejado sobre feminino e masculino caiu, mas como disse o assunto está lá, não tem como fugir, porque está na base da construção desse sistema patriarcal, do qual nos vemos inseridos. E sobre estereótipos do feminismo, não falamos sobre isso não, afinal os mesmos foram criados pelo próprio patriarcado na tentativa de esvaziar o movimento. Coisa que aconteceu e ainda, é claro, existe e muito. Mas desde a primavera das mulheres,  digo com alegria que o feminismo, tem sido resignificado, repreenchido por diferentes movimentos e diferentes mulheres com um alcance bem mais amplo. E é isso, da mesma forma que não se pode reduzir mulheres à Mulher, não se pode reduzir feminismo à um movimento, uma luta – são várias correntes, mulheres, reivindicações, necessidades, histórias, demandas…. sim somos todas mulheres, mas não somos iguais.

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Nora ainda láááá em 2009.

Escrito por Diana Herzog

Em 2009 comecei a escrever cenas para o projeto Nora. Uma delas é inclusive entrou pro Nora agora de 2016. As outras cenas, são cenas, que na verdade ainda não ganharam cena. São cenas que ainda não sei bem o que fazer, mas gosto muito. Apontam diversos caminhos, outras possibilidades, que possam até no futuro descolar da Nora. Mas por ora, compartilho com vocês uma das cenas. A cena 3, que já começa com ele sentado, depois de uma briga, um encontro violento. Depois de algumas fraturas.

E mais pra frente publico a cena 2. Talvez facilite o sentido ou não, mas na verdade não importa.

Cena 3 

 

Ele fica sentado, por alguns segundos até se perceber boneco, mas agora já se sente outro.

 

Ele – Eu quero sugestões. Alguém tem um nome, qualquer nome, não precisa ser conhecido, não precisa ser original. Hein, alguém… você alguém quem é? Qual é o seu nome? Eu nunca pensei pra que servia um nome, além do objetivo óbvio e comum – i-den-ti-da-de, i-den-ti-fi-ca-ção. Hoje desejo um nome, acho que eu poderei estar alguém através dele. Me encontrar e não me identificar.

 

Mulher outra, com outro estado. (pode ser a mesma ou outra atriz) Despojada, confiante, sardônica, ocupa todo o espaço com sua presença, ela está. Essa mulher entra com um microfone na mão, cantando (música a decidir), canta para o público, interage com um ou outro espectador, seduzindo, não importa se é homem ou mulher. Ela também canta para Ele, mas ele não a enxerga, nem a ouve.

 

Mulher – Eu procurei no dicionário, sinônimos da palavra identidade, achei que vocês poderiam achar interessante. Eu achei interessante. É interessante pensarmos nas conotações, sei lá a gente passa uma vida se definindo, buscando uma identidade. Vamos-lá, preciso me conter, sou capaz de ficar aqui falando com vocês qualquer coisa, com sentido ou não. Foco.

 

Mulher tira de sua bolsa (pode-se pensar em outra possibilidade)placas com as palavras, e mostra para o público, enquanto declama cada uma respectivamente.

 

Mulher – Identidade – Analogia – Carteira – Coincidência – Comunidade – Igualdade. Identidade sempre em relação a algo que está fora.

 

Ele – Você tem um nome que me ache? Você não gostaria de tentar me achar? Não adianta, seus nomes não me encontram. Eu tento um olhar para dentro, vejo fragmentos de letras, silabas, marcas e cores que surgem entre grãos de areia. Pode ser que meu nome venha de lá, lá longe, lá dentro. Um nome, alguém tem um nome… (silêncio)

 

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Mulher – Ele precisa de um nome. Qual nome. Ele escolhe? Mas se ele não escolher quem decide, quem sugere, quem namora um nome?

 

Ele – Alguma sugestão? Um nome?

 

Ele abre pastas que estão cheias de letras avulsas, joga tudo no chão, tenta organizar, brinca com as letras e suas possibilidades na busca de um nome. No quadro atrás ele prega as letras, a platéia lê combinações que não fazem sentido. Ele permanece nessa ação.

 

MulherEle não é ela, ele não é ela vestido dela. Talvez ele possa ser ela, quando ela quer ser ele ou até outro, mas não ela e não mulher. Ele senta como homem, como mulher, senta estando, senta com presença, perplexo não consegue, possivelmente nunca soube um nome.

 

Ele – Burg… Trrivs… um nome… Eu me chamo alguém. Alguém tem um nome? Alguém com a mais boa vontade, poderia me sugerir alguém. Talvez alguém que já exista, ou já existiu. Um nome, eu alguém não sei quem já fui, não sei se já fui alguém, não sei que sou, ou se sou alguém. Um nome de ninguém pode ser um nome para mim, para o meu alguém que ainda é ninguém, ainda não é eu. Eu sou ele. Eu estou alguém em ninguém. Ugko, jern…

 

Mulher – Com certeza ele não sabia o nome dela, nunca tinha pensando na importância ou talvez no valor de um nome. Ele era capaz de sentir o cheiro dela mesmo que vindo de outra cidade. Ele que ainda não tinha um nome e nunca soube o nome dela, através de suas camadas mais superficiais vibrava em harmonia com o corpo dela, e vibrava dessa maneira só com o corpo dela. Sua capacidade de experiência ultrapassava a necessidade de um nome. Nome era para os outros, para aqueles que não se entrelaçavam, não se emaranhavam, ele não precisava de um nome até hoje, até agora. Agora que ela foi embora, ele não sentia mais cheiro, seu corpo não vibrava, não harmonizava mais. Um corpo em caos. Ele nunca precisou do nome dela, ele não precisa mais do nome dela afinal ela já não é mais ela, não aquele ela com ele, e ele não é mais aquele ele com aquele ela. Quem é ele agora? Ele quer um nome, ele precisa de um nome, ele quer se ver dentro.

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Ele continua brincando com as letras, emitindo sons de possíveis nomes.

 

Mulher – Que tal Alfredo ou Jacques. Isso Jacques, Jacques é bonito, soa elegante, JACQUÊS (sotaque francês), nossa eu adoro francês, é lindo! Jacques, pronto.

Mulher vira para ele e fala alegremente.

 

Mulher – Jacques, querido!

 

Ele continua naquela mesma ação, não ouve a mulher.

 

Mulher – Jacques! Você não queria um nome! Eu escolhi. Jacques querido, presta atenção. Pára Jacques, pára de mexer nisso, fica quieto. Jacques, Jacques, Jacques.

 

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Sobre a espada de Madureira atravessada no peito da minha garganta

Escrito por Joana Lerner,  após entrevistar mulheres no Mercado de Madureira.

Saí de Madureira quase sem palavras. Muitas Sensações não identificadas em palavras. Logo depois das entrevistas, a Diana pediu que eu contasse um pouco da minha experiência para a câmera do  filme/documentário do processo. Nem sei o que falei. Gaguejei mais do que qualquer coisa. Eu preciso de um tempo pra digerir as coisas. Acho que todos nós.

 

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Dois dias depois eu me dei um espaço de tempo pra tentar entender que sensações eram aquelas borbulhando dentro de mim. Espaço de tempo é o que não nos damos. Crescemos na sensação de que não podemos parar. É inútil. Não põe o pão na mesa.

 

O Silêncio incomoda.

 

Tudo que é novo incomoda um pouco, acho. Crescemos sem a presença do silêncio. Crescemos acompanhados de uma turbina ligada no máximo, que nos distrai durante toda a vida. Entramos na frequência dessa turbina e não paramos mais. Esquecemos de respirar até. E sem o espaço de tempo acumulam-se anos em ‘sentimentos e emoções não compreendidos’. Vidas inteiras em ‘sentimentos e emoções não compreendidos’ por nós mesmos. Gerações e gerações de incompreensão. E o que eu vi em Madureira foi isso, muitos sentimentos incompreendidos, acumulados e atirados no buraco negro do peito da nossa garganta. Fica aqui óh, acumulado no corpo. No peito as emoções borbulham e entalam na garganta. Carregamos dia e noite pra todos os lados e sem pensar arrotamos o cheiro de toda essa inhaca densa em qualquer um que passa por perto. Mas a inhaca fica, aqui, entalada na garganta. Sem autorização pra sair.

Em Madureira vi essas mulheres sem autorização pra sentir o que realmente sentem, pra pensar o que realmente pensam, e agir como realmente gostariam, reprimidas por esses acúmulos da não compreensão de nós mesmos. E o que é mais triste; Elas não sabem disso. O acumulo é tamanho que não conseguem enxergar, ou melhor, sentir que não sentem o que realmente sentem.

 

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Uma delas tinha 12 irmãos, foi obrigada a casar com o irmão do seu pai (seu tio) e proibida por ele de trabalhar como professora, seu maior sonho. Teve 3 filhos, apenas um sobreviveu.

Ela diz que a mulher que não quer ser mãe, não sabe o que é amor.

Pra mim essa mulher foi abandonada.

Pelo seu pai.

Pela sua mãe.

Por ela mesma.

Ela realmente acha isso? Ou a vida dela, a cultura, o patriarcado é quem não permitiu que ela sentisse o amor além do filho?

Assim como essa, vi outras vidas inteiras escorridas pelo ralo.

 

*

 

Vejo uma mulher sozinha no cinema e penso – “coitada”.

Por que?  Porque eu penso assim?  Eu penso assim?

 

 

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