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Sobre a espada de Madureira atravessada no peito da minha garganta

Escrito por Joana Lerner,  após entrevistar mulheres no Mercado de Madureira.

Saí de Madureira quase sem palavras. Muitas Sensações não identificadas em palavras. Logo depois das entrevistas, a Diana pediu que eu contasse um pouco da minha experiência para a câmera do  filme/documentário do processo. Nem sei o que falei. Gaguejei mais do que qualquer coisa. Eu preciso de um tempo pra digerir as coisas. Acho que todos nós.

 

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Dois dias depois eu me dei um espaço de tempo pra tentar entender que sensações eram aquelas borbulhando dentro de mim. Espaço de tempo é o que não nos damos. Crescemos na sensação de que não podemos parar. É inútil. Não põe o pão na mesa.

 

O Silêncio incomoda.

 

Tudo que é novo incomoda um pouco, acho. Crescemos sem a presença do silêncio. Crescemos acompanhados de uma turbina ligada no máximo, que nos distrai durante toda a vida. Entramos na frequência dessa turbina e não paramos mais. Esquecemos de respirar até. E sem o espaço de tempo acumulam-se anos em ‘sentimentos e emoções não compreendidos’. Vidas inteiras em ‘sentimentos e emoções não compreendidos’ por nós mesmos. Gerações e gerações de incompreensão. E o que eu vi em Madureira foi isso, muitos sentimentos incompreendidos, acumulados e atirados no buraco negro do peito da nossa garganta. Fica aqui óh, acumulado no corpo. No peito as emoções borbulham e entalam na garganta. Carregamos dia e noite pra todos os lados e sem pensar arrotamos o cheiro de toda essa inhaca densa em qualquer um que passa por perto. Mas a inhaca fica, aqui, entalada na garganta. Sem autorização pra sair.

Em Madureira vi essas mulheres sem autorização pra sentir o que realmente sentem, pra pensar o que realmente pensam, e agir como realmente gostariam, reprimidas por esses acúmulos da não compreensão de nós mesmos. E o que é mais triste; Elas não sabem disso. O acumulo é tamanho que não conseguem enxergar, ou melhor, sentir que não sentem o que realmente sentem.

 

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Uma delas tinha 12 irmãos, foi obrigada a casar com o irmão do seu pai (seu tio) e proibida por ele de trabalhar como professora, seu maior sonho. Teve 3 filhos, apenas um sobreviveu.

Ela diz que a mulher que não quer ser mãe, não sabe o que é amor.

Pra mim essa mulher foi abandonada.

Pelo seu pai.

Pela sua mãe.

Por ela mesma.

Ela realmente acha isso? Ou a vida dela, a cultura, o patriarcado é quem não permitiu que ela sentisse o amor além do filho?

Assim como essa, vi outras vidas inteiras escorridas pelo ralo.

 

*

 

Vejo uma mulher sozinha no cinema e penso – “coitada”.

Por que?  Porque eu penso assim?  Eu penso assim?

 

 

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Distúrbios alimentares: uma nova histeria?

Escrito por Diana Herzog,

O ensaio de Susan Bordo utilizado na discussão sobre Nora e a histeria tem como proposta analisar o corpo feminino a partir de doenças tipicamente femininas. A autora considera distúrbios alimentares como a doença feminina contemporânea, o que não quer dizer que não houvesse anorexia anteriormente, fato que ela mesma comenta. A relação problemática da mulher com a comida é antiga pois aparece historicamente como mais um meio de controle patriarcal. Bordo (1997) menciona o trabalho de Helena Michie, que examina as representações do século XIX sobre mulheres, apetite e alimentação. Michie relaciona o padrão feminino de comer com a sexualidade feminina, de maneira que o primeiro serve como representação do segundo dentro dos moldes culturais. Por conseguinte, uma mulher comendo implicaria numa conotação sexual, segundo a autora:

O “‘tabu representacional’ do romance vitoriano de não se referir a mulheres comendo (aparentemente, uma atividade que só ‘acontece nos bastidores’, como diz Michie) funciona como código supressão da sexualidade feminina, seguindo a norma cultural exibida em manuais de etiqueta e sexo, que prescrevem à mulher bem-educada comer pouco e delicadamente.” (Michie, apud Bordo, p. 35-36)

Durante toda a peça Casa de boneca vemos Torvald regular o apetite de Nora por guloseimas. Nora, apaixonada por doces e em especial bolinhos de amêndoas (macaroons), é obrigada a consumi-los em segredo, escondido de Torvald, que a proíbe de come-los a fim de que ela possa manter sua forma elegante, desejável, ao lado de lindos dentes. Logo na primeira cena vemos Nora sendo reprimida por Torvald, ato que irá se repetir ao longo de toda a história:

HELMER– E eu não queria que fosse diferente do que é, minha doce cotovia. Mas olhando bem, você parece que… como eu posso dizer… tem um jeito… de quem fez alguma coisa que não devia…

NORA– Eu tenho?

HELMER– Tem. Olhe nos meus olhos, será que minha menina gulosa fez alguma travessura na cidade?

NORA– Não, como você pode pensar uma coisa dessas?

HELMER– A minha gulosa não deu mesmo uma passadinha na confeitaria?

NORA– Não, juro que não, Torvald.

HELMER– Não deu uma lambidinha num pote de geléia?

NORA– De jeito nenhum.

HELMER– Nem uma mordidinha num biscoitinho ou dois de amêndoas.

NORA– Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que lhe desagradasse. (Schøllhammer e Freire-Filho, 2008, p. 4)

 

De maneira que o corpo feminino de Nora para Torvald também é um local de controle e sujeição; é um corpo permanentemente disciplinado, assim como são os corpos femininos até hoje. Vemos Nora ser tratada como criança levando broncas por comer doces, mas podemos também entender o ato de comer escondido como uma das indicações de um diálogo interno da personagem. Ela, não deixa de comer os doces que tanto gosta porque seu marido a proíbe, da mesma maneira que ela não deixa de falsificar uma assinatura, pegar um empréstimo ou trabalhar escondido, todos são atos que conferem a personagem força e voz interna tanto para que ela possa fazer suas próprias escolhas mesmo que em segredo, quanto para que ela possa ter uma tomada de consciência na última cena.

Bordo fala da histeria como reação, como protesto inconsciente à opressão que as mulheres viviam na virada do século XIX, quando o ideal de mulher ainda era construído por escrito, através da literatura, dramaturgia, críticas, revistas, etc… por meio das palavras dos homens. À histeria, Bordo soma ainda a agorafobia e a anorexia como protestos inconscientes, doenças que apareceram com mais força já na segunda metade do século XX e aponta como uma possível causa a intensificação de ideais estéticos do feminino que oprimem as mulheres junto com as cobranças de uma mulher independente, na busca da igualdade ao homem. A autora indica a tecnologia como o grande meio pelo qual a mulher é oprimida, e aborda a dificuldade das mulheres no mundo contemporâneo das imagens, internet, televisão que continuam fragilizando as mesmas, pois é através destas tecnologias que a imagem da mulher — a mulher como imagem — é constantemente produzida e reproduzida, tornando-se as principais fontes produtoras de cultura.

Com o advento do cinema e da televisão, as normas da feminidade passaram cada vez mais a ser transmitidas culturalmente através do desfile de imagens visuais padronizadas. Como resultado, a feminidade em si tornou-se largamente uma questão de interpretação, ou tal como colocou Erving Goffman, a representação exterior adequada do ser. Não nos dizem mais como é “uma dama” ou em que consiste a feminidade. Em vez disso, ficamos sabendo das regras diretamente através do discurso do corpo: por meio de imagens que nos dizem que roupas, configuração do corpo, expressão facial, movimentos e comportamentos são exigidos. (Bordo, 1997, p. 24)

 

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Nas três desordens vemos aparecer um corpo reativo à tentativa de controle por um “corpo dócil”:

A sintomatologia dessas desordens revela-se como textualidade. A perda da mobilidade e da voz, a incapacidade de sair de casa, a tendência a alimentar outros enquanto se morre de fome, de ocupar espaço ou reduzir gradualmente aquele que o corpo ocupa — todas têm significado simbólico, todas têm significado político dentro das normas variáveis que governam a construção histórica do gênero. Penetrando nessa estrutura, vemos que, olhando a histeria, a agorafobia ou a anorexia, encontramos o corpo de quem sofre profundamente marcado por uma construção ideológica da feminidade típica dos períodos em questão. Naturalmente, essa construção está sempre homogeneizando e normalizando, tentando suprimir as diferenças de raça, classe e outras, insistindo para que todas as mulheres aspirem a um ideal coercitivo, padronizado. (Bordo, 1997, p. 23)

 

 

Hoje a histeria já não tem o mesmo espaço, na verdade virou gíria, termo corriqueiro ligado à perda de controle, sempre em relação à reações femininas. O que temos são os transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. E mesmo que muitas mulheres não apresentem essas desordens, elas permanecem latentes na rotina de uma mulher, que transita do espelho à televisão, ao cinema, à revista, à sala de ginástica, da balança à dieta.

Ao mesmo tempo que continuam sendo ensinadas às mulheres jovens “em ascensão”, as virtudes tradicionalmente “femininas”, na medida em que elas penetram em áreas profissionais, também precisam aprender a incorporar a linguagem e os valores “masculinos” desse âmbito — autocontrole, determinação, calma, disciplina emocional, domínio etc. Os corpos femininos falam agora dessa necessidade em sua configuração corpórea reduzida, enxuta, e no uso de roupa mais próxima da masculina, em moda atualmente. Nossos corpos, quando nos arrastamos todos os dias para a ginástica e resistimos ferozmente às nossas fomes e aos nossos desejos de gratificar e mimar a nós mesmas, também estão se tornando cada vez mais habituados com as virtudes “masculinas” de controle e autodomínio. As anoréxicas as perseguem com dedicação ingénua, inabalável. (Bordo, 1997, p. 26)

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Os distúrbios alimentares, principalmente a anorexia, tornam-se um meio pelo qual uma mulher oprimida e desorientada dentro de tantas cobranças estéticas e emocionais tenta dar conta das mesmas. O não comer é tanto um caminho para magreza, quanto um caminho para sentir-se no controle, no poder, mais próxima das características esperadas de uma mulher quando ela entra num local de trabalho predominantemente masculino. Bordo comenta que a mulher não só emagrece, mas junto com perda do peso, ela perde também a sua figura feminina, seios, bunda, coxas, aproximando-se do físico masculino mais reto e não curvilíneo.

Na busca pela esbeltez e na negação do apetite, a construção tradicional da feminidade cruza com a nova exigência para as mulheres de incorporar os valores “masculinos” da área pública. Como já indiquei, a anoréxica incorpora esse cruzamento, esse modelo híbrido, de maneira particularmente dolorosa e vivida.” Enfrenta um duplo elo ou dilema insolúvel. A “masculinidade” e a “feminidade”, pelo menos desde o século XIX e talvez antes, foram construídas através de um processo de mútua exclusão. Não se pode simplesmente juntar as virtudes historicamente femininas àquelas historicamente masculinas para produzir uma “nova mulher”, um “novo homem”, uma nova ética ou uma nova cultura. (Bordo, 1997, p. 26-27)

A escolha pelo jejum representa um ato de controle, convicção e domínio sobre a própria vida e também a morte. Por meio do ato de dizer não, de fechar a boca quando todos, família, médicos e marido estão implorando para que a mesma mastigue e coma. Para Bordo, um ato de protesto inconsciente contra toda a opressão que a mulher contemporânea tem sido exposta:

A anoréxica está engajada numa “greve de fome”, como diz Ohrbach, realçando esse fato como um discurso político no qual a ação de recusar comida e a dramática transformação do tamanho do corpo “exprimem corporalmente o que a pessoa é incapaz de nos dizer com palavras” — sua acusação a uma cultura que despreza e suprime a fome feminina, torna as mulheres envergonhadas de seus apetites e suas necessidades e exige delas um trabalho constante de transformação de seus corpos. (Bordo, 1997, p. 28)

Bordo discute ainda, a partir de uma perspectiva histórica, a relação da mulher com a comida, isto é, a mulher como aquela que alimenta o outro, que cuida, e não a que come. Ela relembra um comercial de chocolate, dos anos 80, em que uma mulher cuidou dos outros e no final do dia ela se dá de presente um único pedacinho como recompensa, para que não precise comer com culpa. Estamos em 2015 e a culpa permanece intacta quando entramos no tema mulher/corpo/alimentação. O ensaio de Bordo, permite-nos ter um olhar mais próximo da mulher contemporânea, esmagada por ideais que não são seus, e assim perceber que além da constante necessidade de teorias críticas como as de Judith Butler, precisamos urgentemente que esses pensamentos alcancem aqueles que estão distantes da academia e próximos demais da televisão e internet.

 

Referência Bibliográfica:

BORDO, Susan. O Corpo e a Reprodução da Feminidade: Uma Apropriação Feminista de Foucault. In: JAGGAR, Alison M; BORDO, Susan. (org). Gênero, Corpo, Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. P. 19-41.

Para baixar o PDF do texto, clique no link abaixo
O CORPO E A REPRODUÇÃO DA FEMINIDADE- UMA APROPRIAÇÃO FEMINISTA DE FOUCAULT Susan Bordo.pdf
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Sobre o início ou tentativa 1

Minha relação com a Nora começou em 2007 ao ler pela primeira vez a peça Casa de Bonecas de Henrik Ibsen. Lia a última cena e vibrava junto com a personagem que escolhia mudar a própria vida. Eu chorava de emoção (não estou exagerando) com a lucidez da Nora ao entender a importância e urgência de seu auto-conhecimento. Antes de qualquer nome ou função, antes da esposa, da mãe, até da “mulher”, ela precisava se perceber como pessoa, que sente, pensa, escolhe, faz, fala. De alguma forma tudo aquilo que ela falava para Torvald (seu marido) dizia respeito a mim. Fazia um ano que tinha terminado o maior relacionamento amoroso da minha vida até então, e me encontrava num momento de libertação, principalmente num momento de encontro comigo mesma. Pra a falar verdade, foi o meu primeiro encontro comigo mesma (aos 26 anos).

Quando eu ouvi a batida da porta no final da peçadigo ouvi, porque a sensação é de que ouvi mesmo uma batida concreta, seca; uma batida de transição, transgressão e vida, – eu junto com a Nora, estava batendo a minha porta. Nossas transgressões não eram as mesmas, afinal eu não estava deixando marido e filhos em busca de mim mesma. Na verdade tinha sido deixada, por quem eu acreditava um ano antes ser o amor na minha vida, ser a minha completude, acho que até minha salvação. Completude??? Salvação??? Aquela minha relação era a minha fuga de mim mesma. Lembro que dizia pra mim: “Pronto, agora tá tudo certo, não preciso mais olhar pra ninguém, não preciso mais me preocupar. Durante quase quatro anos escolhi sentar no banco da passageira. Achava lindo me definir pela pessoa que havia escolhido para viver o resto da minha vida. Achava lindo um casamento que um se definia pelo outro, um era a metade do outro, uma era a companhia do outro. E no meu caso então, era uma pessoa que eu admirava muito, que achava brilhante, e de alguma maneira eu sentia que tudo aquilo que essa pessoa tinha de especial me pertencia em algum grau, e assim eu também me sentia especial.

Do dia em que fui terminada, digo terminada porque fui mesmo, foi contra a minha vontade, contra meus planos e meu futuro já pré-definido e pré-vivido. Fui terminada, quebrada em pedaços, me senti desfeita, apagada, sem sentido. Falava em querer ser atropelada, estuprada, violentada, na esperança de sentir menos dor. Desse diado dia em que me vi sozinha até o dia em que encontrei Nora, a vida aconteceu, eu aconteci. Aos poucos fui descobrindo as minhas qualidades, os meus prazeres, gostos, a alegria de ser eu, coisa que juro nunca tinha sentido, mesmo. Vivemos num mundo muito duro que nos oprime, e ao ver o encontro de Nora com ela mesma, simultaneamente ao meu encontro comigo mesma, me senti instantaneamente uma Nora. A sensação era de que eu estava subindo o alto de uma montanha e fincando uma bandeira, me senti heroína de mim mesma. É claro que essa sensação passou, até porque a gente finca a bandeira e a vida continua. Eu com meus 26, 27 anos achava que tinha chegado em algum lugar. Tolinha.

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Quase dez anos depois, agora com 36, com alguns encontros e desencontros vividos comigo mesma, Nora e eu continuamos firme e forte. Nesse tempo escrevi 10 cenas, fiz leituras, entrevistei mulheres com a minha prima Fernanda Polacow, li Simone de Beauvoir, achei que poderia me tornar uma Mulher Desiludida”, fui de mochilão para Amazônia sem rumo certo, me apaixonei por Virgina Woolf e pelo livro da Clarissa Pinkola Estes Mulheres Que Correm Com Os Lobos, apresentei a minhaNora numa performance, me apaixonei de novo, casei, adotei uma cachorra (a Xirley), escrevi uma monografia, dirigi e apresentei uma pesquisa cênica, me formei… Calma aí, para tudo! Preciso falar do momento logo antes do início da monografia e da pesquisa cênica.

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Voltemos ao segundo semestre de 2014: Tinha certeza que queria falar do encontro da Nora e do encontro das mulheres com o próprio feminino. Já quase sendo jubilada da UNIRIO (14 períodos em 9 anos), decidi que minha monografia seria a continuação da minha paixão: convidei a Nora para a pesquisa e convidei também a Ana Bernstein para me orientar. E essas duas escolhas me fizeram entender porque eu levei 17 anos para me formar – fora os períodos da UNIRIO foram + 5 na Univercidade + 2 na Estácio + 5 na Universidade da Flórida. Ufa! Até hoje tenho dificuldade de acreditar que não sou mais estudante de graduação, minha carteirinha já já vai vencer.

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No primeiro encontro entre orientanda e orientadora (muita emoção e medo nesse dia), a Ana questionou e desconstruiu tudo o que eu estava propondo, saí de lá desnorteada. Como disse acima, queria falar do feminino, desse encontro com a mulher loba, com a terra, com a lua, com o útero, o ventre, o sagrado feminino, etc… Em questões de minutos ela me deixou sem palavras. Pra quem não me conhece, é difícil me deixar sem palavras, eu tenho o péssimo hábito de falar muito, mesmo quando eu não sei direito, fico querendo emitir minha opinião, tolices de uma mulher de 36 anos ainda bem imatura, mas estou no caminho. Enfim… fiquei sem palavras. Lembro que eu falava com convicção: “… mas porque a mulher é mais sensível, blá, blá, blá” e ela “Por que a mulher é mais sensível?”, eu Porque é uma questão da natureza” e ela “É mesmo?. A conversa seguiu essa linha até eu calar a boca e entender que precisava começar a me informar um pouco mais antes de falar. Quero ressaltar aqui a generosidade da Ana em apenas levantar as questões e não sair me dizendo que eu estava errada por causa disso ou por causa daquilo. Ela não defendeu ideias, não quis me mostrar o que eu devia pensar, mas que eu devia pensar. Coisa que também preciso aprender a fazer, porque eu estou sempre defendendo ideias, ao invés de levantar questões. Mas isso não importa agora, o que importa é que daquele momento em diante ela me orientou, me apresentou pensamentos, artistas, autoras, autores que me deram um nó, nó esse que continuo tentando desemaranhar. E isso é lindo, e isso é bom, e isso é vida.

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Série auto-retrato – 1998 – Melhor Amiga

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Ano passado, o processo da pesquisa e estudo foi um momento de desencontro comigo mesma, um desencontro de uma eu, que eu achava que era fixa, que era forte, que era crítica, que conseguia ter um olhar de fora, que sabia de alguma coisa. Ano passado me perdi de mim mesma, perdi minhas referências, comecei a questionar todos os meus gostos, meu comportamento, minha criação, e foi impressionante como me vi presa num negócio muito pegajoso, grudento que não sai de jeito nenhum (mais tarde vou chamar isso também de patriarcado). As minhas roupas; a minha relação com meu cabelo, com meu corpo; a bulimia que tive dos 17 aos 20; a vergonha de falar com pessoas que eu considero mais importantes que eu; a minha incapacidade de sair de um padrão; o medo de sair da regra, de chamar atenção; a minha constante fuga atrás da minha aparência de menina; o fato de crescer achando que eu era a princesa do meu pai, na verdade ainda achar que eu sou a princesa do meu pai; ter tido rosa como a cor preferida a vida toda e ter achado que isso era uma transgressão; o complexo com a minha orelha na infância; o complexo com a minha altura a vida toda; o complexo comigo mesma; o constante medo de engordar, de envelhecer; o meu corpo dócil despontencializado, servindo a tudo que não eu. Agora percebo que o mesmo medo de me tornar invisível com a idade – sim na nossa cultura mulheres depois de uma certa idade tornam-se invisíveis – esse medo de me tornar invisível, é o que na verdade me mantém na invisibilidade e me faz colar no todo, no outro, no correto, no aceitável, no belo, no padrão, no sistema, no fora que me enfraquece, me fragiliza, me violenta.

 

Nora, tanto a personagem, quanto essa pesquisa, são para mim uma fonte inesgotável de questionamentos e inquietudes. Eu começo a escrevere quando vejo já fui para um lado, já fui para o outro e não cheguei nem perto do fundo. Continuo na beirada.

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Eu ia contar um pouco sobre o processo da
Nora, sobre a oportunidade de poder estender o processo de pesquisa com a ajuda do Viva a Cultura!, ia também falar que tipo de coisas postaremos nesse blog. Porém, são muitas coisas, muito afeto, muitas transformações e desafios, e como vocês já perceberam tenho bastante dificuldade em ser objetiva, quando vejo já foi. Mas como é um blog e o mesmo precisa ser alimentado toda semana, o que não vai faltar é oportunidade pra continuar, e pra falar de outras coisas e assuntos. Não se preocupem, não será o meu querido diário”. Eu prometo!

Na primeira frase lá em cima já deixei bem claro, esse será um espaço de compartilhamento da criação, então veremos aqui não só a minha voz mas as de todxs xs participantes, seja em vídeo, áudio, escrita, desenho, etc…: Cida de Souza, Duda Maia, Elisa Faulhaber, Joana Lerner, Leandro Romano, Lilia Wodraschka, Luiz André Alvim, Maíra Kestenberg, Manoela Campos, Natasha Melman, Priscila Assum e Renata Ravani, Valéria Martins, João Polessa, terão presenças diretas ou indiretas nesse espaço que é para mim especial e que nasce hoje, nasce agora.

E a Nora continua viva e forte e inspiradora depois de bater a porta!

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Sobre Projeto Nora

Projeto Nora é uma pesquisa cênica iniciada como conclusão do curso de Teoria do Teatro da aluna Diana Herzog e tem a personagem Nora da peça Casa de Bonecas de Henrik Ibsen como ponto de partida.

Nora tornou-se um símbolo feminista – mulher não mais como um papel social, como mãe, como esposa, e sim como pessoa, indivíduo. Passados mais de 100 anos da estreia da peça, Nora segue transgressora. O papel da mulher tanto quanto do homem ainda repetem padrões de um sistema patriarcal. Sim, muito já mudou…mas muito ainda se repete.

Fomos as ruas, entrevistamos mulheres, ouvimos suas vozes e histórias tentando entender o que mudou, o que não mudou. Percebemos que independentemente de qualquer mudança, época ou localidade, as mulheres que entrevistamos revelaram um traço em comum – a vontade de falar, de ser ouvida, de compartilhar suas histórias, lembranças e questões. E entendemos que a maior transgressão de todas talvez seja o próprio ato da fala acompanhado da escuta.

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