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Entrevista para Luiz Felipe Reis

Dessa maneira mantê-la como um símbolo feminista, implica em não aceitarmos nem as antigas continuações da peça nem as novas que a reinserem dentro de casa ou a tornam infeliz, amargurada e culpada por ter tido a coragem de afirmar-se como sujeito. A Nora precisa manter-se viva fora de casa, ali naquele exato momento após a batida da porta e antes de sua entrada no mundo como indivíduo. Como entrar como indivíduo no mundo? E que mundo é esse em que entramos? Esse fora é o potencial de mudança e transformação, é o exercício de imaginar novas possibilidades, novos espaços para então materializá-los.

 

Por Diana Herzog

Logo antes da nossa estreia dei uma entrevista para o jornalista Luiz Felipe Reis, editor da coluna de teatro do Segundo Caderno do Globo. Foi uma delícia poder pensar novamente na pesquisa, mas dessa vez refletindo sobre o trabalho concluído e prestes a ser compartilhado com o mundo. O Luiz Felipe fez várias perguntas instigantes e eu me animei, mas como hoje o espaço de um jornal é muito limitado, só um pedacinho da entrevista foi publicado, o resto ficou pra nós dois.

Esse post é então o compartilhamento dessa conversa que levanta vários temas importantes para que continuemos pensando o feminismo, a mulher e o homem no mundo, e como muito ainda precisa ser transformado.

Luiz Felipe: “Casa de bonecas”, como você diz, é um dos textos mais continuados da história, já que Ibsen “finaliza” a peça com a saída de Nora, mas deixa algo em aberto, por conta das reticências. Isso gerou uma série de releituras e continuações. Você utiliza, além do texto original de Ibsen, uma outra versão para última cena, escrita pela Eleanor Marx e pelo Israel Zangwill. O que há de singular nessa reescrita deles? E como você interpretaria esse gesto do próprio autor? 

Captura de Tela 2016-07-04 às 16.44.23Diana: Eles fazem uma nova versão para última cena da “Casa de Bonecas”. Essa versão mantém mais de 50% do texto original, o que ocorre é que na verdade a Eleanor e o Israel de maneira simples e brilhante, invertem as falas de Torvald e Nora, o que produz  um efeito impactante, que evidencia o olhar retrógrado e ridículo presente nas críticas negativas que conferem à Nora um caráter egoísta, narcisista, histérico e inverossímil.  A versão é espirituosa e inteligente. Marx e Zangwill respondem a cada crítica negativa com humor, porque as falas, quando os papéis se invertem, soam absurdas, sendo capazes de fazer ressoar toda a camada moralista e machista presente em cada comentário negativo a respeito da personagem, da história e de Ibsen. Vale lembrar que essa versão não foi escrita para ser montada, e sim como uma crítica aos críticos da Nora e do Ibsen. Inclusive tivemos dificuldade com isso na hora de levar para a cena. Inicialmente eu tinha pensado em fazer um corte e levantar como cena mesmo. Mas ela é complicada, porque é mais para ser lida. Trabalhamos muito e na montagem entraram três trechos costurados por três críticas da época. Além da cena, eles escreveram um prólogo também, super sarcástico, como se tivessem corrigindo o texto do Ibsen com as próprias palavras do Ibsen, e que seria então melhor do que o original. E que agora todos poderiam ficar tranquilos. Enfim. Se quiser posso te enviar alguns trechos pra você entender. É engraçado, na verdade é surreal. Eu acho o Ibsen brilhante quando ele opta por terminar com o som da batida da porta, é uma maneira de não despontencializar a ação da Nora ao sair de casa. O ato simbólico, transgressor permanece.  Dessa maneira mantê-la como um símbolo feminista, implica em não aceitarmos nem as antigas continuações da peça nem as novas que a reinserem dentro de casa ou a tornam infeliz, amargurada e culpada por ter tido a coragem de afirmar-se como sujeito. A Nora precisa manter-se viva fora de casa, ali naquele exato momento após a batida da porta e antes de sua entrada no mundo como indivíduo. Como entrar como indivíduo no mundo? E que mundo é esse em que entramos? Esse fora é o potencial de mudança e transformação, é o exercício de imaginar novas possibilidades, novos espaços para então materializá-los.

“Então a batida da porta entra como uma necessidade, a porta precisou bater lá em 1879, para que hoje eu possa estar aqui falando com você sobre esse assunto, a porta precisa continuar batendo para que nós mulheres possamos ocupar as ruas, para que nós mulheres possamos ganhar voz, ter voz e principalmente manter a voz. Porque a perda de voz e espaço podem acontecer de um dia para o outro. Já a conquista leva anos.”

 

Luiz Felipe: A emblemática saída porta afora de Nora é re(a)presentada, desconstruída ou reinventada pela sua dramaturgia/montagem de que forma? 

Diana: Na verdade a batida da porta é a base da peça. A saída da Nora. A tomada de voz dela, a percepção dela como pessoa é o que norteou a pesquisa e agora o resultado da mesma. A tentativa foi primeiro revelar a batida como uma transgressão cultural que diz respeito ao papel da mulher – a mulher não mais colada a figura da mãe, da esposa, da cuidadora, passiva, frágil, dama, e sim a mulher antes de qualquer coisa, pessoa. Então o trabalho que tentei fazer foi deslocar a percepção da Nora como a mãe que abandona seus filhos – “abandonadora de lar”. É realmente um elogio à ela, uma defesa e uma homenagem à ela como um símbolo importante feminista que vem atravessando o tempo – ela tem 136 anos. Então a batida da porta entra como uma necessidade, a porta precisou bater lá em 1879, para que hoje eu possa estar aqui falando com você sobre esse assunto, a porta precisa continuar batendo para que nós mulheres possamos ocupar as ruas, para que nós mulheres possamos ganhar voz, ter voz e principalmente manter. Porque a perda de voz e espaço podem acontecer de um dia para o outro. Já a conquista leva anos. É só ver que hoje homens ainda decidem o que nós mulheres fazemos ou não com nosso corpo. Algo que pra mim me soa muito doido, muito mesmo, inacreditável. Quer dizer, tem muita coisa pra conquistar ainda. Só pra deixar claro, o Ibsen não quer que mulheres abandonem seus filhos, sua casa. A discussão não é essa, e sim de que maneira é que mulheres até então tem ocupado o espaço social. E como obra artística, como personagem, Nora precisa ultrapassar as barreiras culturais pra que possamos enxergar a construção de uma estrutura patriarcal. A intenção dele, segundo ele, é criticar a tradição do casamento, e questionar esse combinado entre homem e mulher, um combinado para ele baseado em hipocrisia e representação de papeis. É bom lembrar que a Nora foi criada a partir de uma historia verídica. Uma discípula do Ibsen, Laura, uma escritora (profissão que pra época já é uma transgressão em si, mulheres ricas não trabalhavam, né, e mulheres em geral jamais poderiam ser artistas, gênios, mestres, isso era coisa para os homens, eles eram os iluminados, pensamento que existe ainda hoje, só ver quem são considerados os grandes mestres da pintura), falsifica uma assinatura para pegar um empréstimo (mulheres não podiam pegar empréstimos) e salvar a vida do seu marido, que estava hipertenso precisando tirar ferias. É a mesma história da Nora, o que muda é o final. Quando o marido da Laura descobriu, ele a internou num manicômio por alguns meses, e depois ela ficou sem ver seus filhos por anos. Ele a proibiu de ver os filhos. Quer dizer, a mãe foi separada dos filhos e tudo bem, tudo aceito, afinal a decisão foi tomada por um homem, né. O Ibsen, que nem o marido de Laura, também separa mãe dos filhos, mas por decisão e tomada de consciência da mulher, da Nora. É muito importante isso. Mulheres na época que fugiam do padrão, que não reproduziam “feminilidade” eram diagnosticadas como histéricas e então internadas. Por isso Nora diz que “está mais lúcida do que nunca”, quando decide ir embora. Isso tudo pra dizer, que a porta para a Nora precisa bater, ela precisa servir de símbolo para mulheres, para que também possamos ter uma tomada de consciência. 

Luiz Felipe: E como você observa esse gesto/ato de Nora no contexto da peça original de Ibsen? Como você interpreta o gesto de Nora no tempo em que a obra foi escrita? Havia, naquela época, mais uma expressão de luta por emancipação individual, “independentemente” do gênero — se é que se pode falar isso , ou mesmo na época de Ibsen a noção de emancipação do feminino e ruptura com o patriarcado já podia ser claramente detectada? 

“E temos muito caminho pela frente, muito espaço para ganhar que é nosso, que tem a ver com nossas escolhas e nossas vidas, que são várias, de várias origens, classes, raças, não é um plano, uma mulher, um movimento feminista. É uma multiplicidade de vozes, e essa compreensão e realização talvez seja nosso grande poder de mudança de paradigma e transgressão.”

 

Diana: No contexto original da peça foi uma transgressão total, impensável. Foi considerado um horror, monstruoso. Mulheres não tinham espaço, não podiam quase nada. Mulheres de uma classe social mais alta. Porque, já mulheres mais pobres, precisavam trabalhar, deixavam os filhos pra ajudar a pagar as contas, e ok. Não era um problema. Inclusive, o Ibsen levanta essa questão e a Eleanor escancara. A Nora teve uma babá que cuidou mais dela do que dos próprios filhos. E a Eleanor escreve, que as amas que deram de mamar para os filhos da personagem, não deram de mamar para os próprios filhos e tudo bem. De acordo com Joan Templeton (estudiosa de Ibsen, autora do livro “Ibsen’s Women”), enquanto, na época, mulheres escritoras imaginavam suas personagens se desvencilhando de seus filhos, família, casa e marido através de sonhos e devaneios, Ibsen criou uma personagem que deixa sua casa com a mais absoluta consciência de seu ato. Através do som da batida da porta o autor foi capaz de comunicar a força e concretude de sua saída. Templeton acredita que somente um homem poderia naquele momento escrever a história de Nora: “Talvez, em 1879, apenas um homem poderia imaginar tal liberdade.” Penso que naquele momento histórico as mulheres podiam sim imaginar uma personagem descolando-se de seus papéis culturais, mas somente um homem podia escrever e ter a cena representada tal qual escreveu. Mesmo Ibsen sendo um homem e artista respeitado, ter a cena representada tal qual escreveu não foi fácil, pelo contrário, Ibsen foi acusado e desqualificado pelos críticos como poeta e Nora como personagem. Quando Ibsen fala que a sociedade contemporânea (final de século XIX), é uma sociedade exclusivamente masculina, com leis passadas por homens, e juízes que julgam mulheres a partir de seus próprios pontos de vistas, isto é, o ponto de vista do homem; Eu olho à minha volta e encontro-me inserida numa sociedade patriarcal, onde o homem ainda é o centro, o que detém o discurso dominante.  Quer dizer a Nora ainda é muito importante hoje. 

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Matéria do Luiz Felipe Reis no Segundo Caderno

Luiz Felipe: Nora transgrediu regras e pactos sociais. Hoje, que gesto ou ação feminina poderia ser considerado um ato de ruptura similar ao de Nora? Que atos das mulheres de hoje seriam transgressões paralelas ao ato de Nora? O que faria uma mulher de hoje ser Nora, nesse sentido? O que seria uma transgressão social, hoje? Quais são as portas a se abrir e atravessar?

Diana: Essa foi a pergunta da minha monografia. Foi o meu primeiro interesse, entender quem seriam as Nora hoje e de que maneira é possível traçar um paralelo entre a sua transgressão em 1879 e hoje 2016. E eu não consegui responder, na verdade, acabei levantando mais questões. Algumas das questões que fecharam minha monografia: 

“Quem seriam as Noras hoje? Seria a Nora hoje uma mulher que conseguiu igualar-se ao homem, se é que isso é possível ou mesmo desejável? O que acontece depois que Nora bate a porta? Qual o espaço da mulher hoje? Mulher independente trabalhando é sinônimo de igualdade? Mulher em casa cuidando dos filhos é uma atraso para as conquistas feministas? Como saber a diferença entre o que achamos que queremos e o que de fato queremos? Sabemos o que queremos? Quais são os caminhos para transformação? Como transitar entre o dentro e o fora? Entre a margem e o centro? Quais são as brechas e fendas dentro das instituições? Como ocupá-las? Como enxergá-las se são invisíveis? O que é ser feminina? Como reproduzimos feminilidade? O que o nosso corpo nos diz a respeito dessa condição, como podemos percebê-lo como produto cultural? A Nora ainda permanece um símbolo?”

Pensar a Nora como símbolo é importante, pois a medida que entendo mais claramente a necessidade de sua posição, entendo também que não posso querer encontrá-la entre mulheres de carne osso. Não posso definir uma qualidade Nora, não posso reduzi-la, porque como símbolo ela permanece intacta e transgressora após a batida da porta, de forma à servir de inspiração e exemplo para que nós mulheres continuemos ou iniciemos à questionar o nosso entorno e o sistema vigente que não nos enxerga, nem nos ouve. Nora definida perde sua importância e complexidade. Também é injusto comparar uma personagem com mulheres que continuam vivendo depois de uma transgressão. Acho que imaginarmos uma mulher de carne osso, batendo a porta diante da mesma situação e continuando a sua vida depois, de uma maneira ou de outra essa transgressão acaba diluindo no tempo, porque estamos todos dentro de uma mesma cultura, e é dentro dela que criamos e mantemos relações. Não é possível uma ruptura absoluta, e o Ibsen quando deixa Nora do lado de fora da porta, sem continuação ele consegue manter a ruptura como absoluta. Mas o que eu percebi, é que ao montarmos pequenas ilhas de conversa, com mesinha, biscoitinho, café,  pudemos ouvir historias, as mulheres entrevistadas puderam refletir sobre suas vidas, escolhas, conceitos e opiniões, e que isso em si é uma transgressão. Afinal são mulheres exercendo o ato da fala, e isso historicamente é muita coisa. Acho que transgressão social hoje e todo esse momento da primavera das mulheres – o #primeiroassédio, #belaerecatadadolar, as passeatas contra cunha – são atos que estão ligados diretamente ao ato da Nora, que Nora, como outras personagens que também são símbolos feministas, tem uma responsabilidade nessa mudança que hoje vivemos. Porque lá atrás essas personagens existiram, inspiraram mulheres, essas mulheres se juntaram, e começaram a reinvidicar voz, e hoje eu posso ir pra rua junto com outras mulheres. Eu posso me perceber como pessoa e questionar o meu entorno. E temos muito caminho pela frente, muito espaço para ganhar que é nosso, que tem a ver com nossas escolhas e nossas vidas, que são várias, de várias origens, classes, raças, não é um plano, uma mulher, um movimento feminista. É uma multiplicidade de vozes, e essa compreensão e realização talvez seja nosso grande poder de mudança de paradigma e transgressão. 

“Então é isso, a Nora precisa bater a porta pra que um dia mulheres possam já nascer sem se ver no lugar da passividade, receptividade, objetificação. Você me pergunta sobre as funções, bom, acho que a ideia de que a mulher é mãe, independentemente dela ter ou não filhos, está diretamente ligada a objetificação da mulher. A passagem de objeto para a pessoa, resignifica o entorno e dilui papéis pré-estabalecidos, essas funções podem então ser desvencilhadas da mulher.”

 

Luiz Felipe: Nora desconstrói a mulher enquanto papel social — mãe, esposa, e ajuda a construir a mulher enquanto indivíduo. Em vez de cumprir um papel social, ela passa a criar/inventar um papel para si. Como avalia esse gesto de ruptura com o “cumprir” funções e a guinada ao “criar” ações? Hoje, que funções a mulher precisa se desvencilhar e que ações ela precisa criar?

Diana: Acho que é um gesto empoderador. Conseguir deixar de reproduzir em algum grau, deixar de cumprir, deixar de ter que ser para começar estar, agir, criar, acho que é dos caminhos mais interessantes que podemos escolher. Talvez não seja o mais fácil, mas é isso, a Nora não está preocupada com o caminho mais fácil. Acho que quando se tem um “insight”, uma tomada de consciência, não avaliamos os prós e contras, não paramos pra pensar os obstáculos, simplesmente percebemos que não é mais possível viver do mesmo jeito, e mudamos de rumo, sem garantias.  A Nora se pergunta: como ela pode ser mãe, se não sabe nem quem é. A ideia não é que nós mulheres, depois da Nora, devemos começar a largar nossos filhos para entender quem somos. Mas sim, que esse ato de perceber que somos pessoas, que temos vozes, que somos importantes, que pensamos, é necessário e precisa acontecer antes mesmo de nascermos. É muito louco pensar que eu mulher, preciso tomar consciência e começar a me desvencilhar da ideia de objeto, afinal cresci sem nem me perceber objetificada e por conseqüência me objetificando. É muito louco pensar que isso acontece só com as mulheres. Então é isso, a Nora precisa bater a porta pra que um dia mulheres possam já nascer sem se ver no lugar da passividade, receptividade, objetificação. Você me pergunta sobre as funções, bom, acho que a ideia de que a mulher é mãe, independentemente dela ter ou não filhos, está diretamente ligada a objetificação da mulher. A passagem de objeto para a pessoa, resignifica o entorno e dilui papéis pré-estabalecidos, essas funções podem então ser desvencilhadas da mulher. 

“É importante também lembrar que não podemos falar por mulheres, não podemos reduzir mais do que metade da população do mundo em Mulher de M maiúsculo. Porque é isso, somos mais da metade, somos muitas, de diversas origens, classes, culturas, cores, vivências, experiências. Eu não posso falar por mulheres, posso de alguma forma achar pontos de conexão, mas mesmo assim é complexo. Então ir para as ruas ouvir diferentes vozes, conectar essas vozes com as nossas e claro com a história da Nora é um caminho que eu considero interessante, porque não reduz, parte do singular, do pequeno, deixando que as conexões sejam feitas pelo olhar de cada espectador.”

 

Luiz Felipe: Por que foi importante coletar depoimentos de mulheres nas ruas? De que modo esse material é usado em cena, e que tipo de reflexões ele suscita?

P1070651Diana: A ideia inicial era tentar descobrir quem seriam as Noras hoje. Entrevistamos algumas mulheres que por diferentes motivos, pensamos poder ser uma Nora. Mas depois de assistirmos algumas entrevistas, percebemos, como já mencionei acima, que comparar a Nora com mulheres de carne e osso, não era interessante, não fazia sentido, não era justo. Sentimos então, a necessidade de ouvir vozes e historias, que nos situassem, que de alguma forma poderiam nos inspirar. Fomos então para as ruas, sem saber o que aconteceria, quem apareceria. Não foi algo super pensado, foi algo que o próprio processo naquele momento nos indicou. O processo sabe muito mais do que eu, isso é coisa que já aprendi como atriz faz tempo. Fomos para as ruas, e foi lindo, ouvimos vozes e conhecemos historias, nos identificamos, pudemos lançar um olhar de volta para nós mesmas, e também para a Nora. E foi enquanto eu escrevia a minha monografia que entendi, e percebi que estarmos na rua exercitando o ato da fala e da escuta, no caso nós exercitamos o ato da escuta e as entrevistadas da fala, e isso é em si uma transgressão, uma transgressão que está diretamente ligada a batida da porta de Nora. Porque ela bateu a porta em 1879, nós estávamos ali ouvindo, e mulheres estavam ali falando. E é incrível, como a maioria das mulheres que ouvimos queriam falar, queriam ser ouvidas, algumas nos disseram isso, outras revelaram segredos que nunca haviam contado, e ainda vimos algumas tendo insights ali na hora. É importante também lembrar que não podemos falar por mulheres, não podemos reduzir mais do que metade da população do mundo em Mulher de M maiúsculo. Porque é isso, somos mais da metade, somos muitas, de diversas origens, classes, culturas, cores, vivências, experiências. Eu não posso falar por mulheres, posso de alguma forma achar pontos de conexão, mas mesmo assim é complexo. Então ir para as ruas ouvir diferentes vozes, conectar essas vozes com as nossas e claro com a história da Nora é um caminho que eu considero interessante, porque não reduz, parte do singular, do pequeno, deixando que as conexões sejam feitas pelo olhar de cada espectador. Busquei levantar questões ao invés de defini-las, até porque eu mesma tenho muitas dúvidas e certamente se daqui um ano olhar para isso tudo que eu acabei de escrever talvez discorde. Isso acontece quando olho para o que fiz na pesquisa ano passado, e isso é lindo, porque a transformação é constante. Acho que a única coisa que realmente defino é a importância da Nora como símbolo feminista, como símbolo de mudança, e é ela ou o símbolo dela que vem me norteando desde 2007.

“O que você entende por feminino e masculino?” foi uma pergunta que fizemos não só as nossas entrevistadas, mas também a pessoas aleatórias, desde amigos a desconhecidos nas ruas. E as respostas são muito similares, o feminino é sempre ligado à mulher que é sempre ligada à fragilidade, passividade, inferioridade, receptividade, irregularidade, desconfiança… e o masculino sempre à força, constância, confiança, atividade, superioridade, ação… E as respostas sempre justificam-se através das diferenças biológicas entre mulheres e homens. Isso tudo nos incomodou muito, e acabamos falando muito sobre isso.”

 

Luiz Felipe: Como o projeto aborda e lida com os clichês e estereótipos do feminismo e do “feminino” em cena?

Diana: Esse ano estamos tocando menos nesse assunto, quer dizer, é claro que ele está presente, mas ano passado acho que a percepção geral do que é feminino e masculino foi um grande norte. “O que você entende por feminino e masculino?” foi uma pergunta que fizemos não só as nossas entrevistadas, mas também a pessoas aleatórias, desde amigos a desconhecidos nas ruas. E as respostas são muito similares, o feminino é sempre ligado à mulher que é sempre ligada à fragilidade, passividade, inferioridade, receptividade, irregularidade, desconfiança… e o masculino sempre à força, constância, confiança, atividade, superioridade, ação… E as respostas sempre justificam-se através das diferenças biológicas entre mulheres e homens. Isso tudo nos incomodou muito, e acabamos falando muito sobre isso. Mas esse ano, já com mais tempo de pesquisa, e com mais tempo para pesquisar, resolvi que nosso norte seria apenas a Nora. E foi isso, a cena que havia planejado sobre feminino e masculino caiu, mas como disse o assunto está lá, não tem como fugir, porque está na base da construção desse sistema patriarcal, do qual nos vemos inseridos. E sobre estereótipos do feminismo, não falamos sobre isso não, afinal os mesmos foram criados pelo próprio patriarcado na tentativa de esvaziar o movimento. Coisa que aconteceu e ainda, é claro, existe e muito. Mas desde a primavera das mulheres,  digo com alegria que o feminismo, tem sido resignificado, repreenchido por diferentes movimentos e diferentes mulheres com um alcance bem mais amplo. E é isso, da mesma forma que não se pode reduzir mulheres à Mulher, não se pode reduzir feminismo à um movimento, uma luta – são várias correntes, mulheres, reivindicações, necessidades, histórias, demandas…. sim somos todas mulheres, mas não somos iguais.

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Conversa Sobre Feminismo com a Revista DR ou Mini Doc

Nossa segunda conversa sobre feminismo foi com a Revista DR. A Mariana Patrício, Fernanda Bruno e Oiara Bonilla foram lá na Base Dinâmica representar a revista e falar um pouco de como a DR aconteceu e da necessidade de tomada de consciência e voz de nós mulheres na academia e nas ruas. Foi uma noite linda, cheia de trocas e discussão.

Pra quem foi e curtiu ou pra quem não foi mas se interessou, temos o prazer de compartilhar um pouco do que rolou naquele sábado super especial.

 

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Distúrbios alimentares: uma nova histeria?

Escrito por Diana Herzog,

O ensaio de Susan Bordo utilizado na discussão sobre Nora e a histeria tem como proposta analisar o corpo feminino a partir de doenças tipicamente femininas. A autora considera distúrbios alimentares como a doença feminina contemporânea, o que não quer dizer que não houvesse anorexia anteriormente, fato que ela mesma comenta. A relação problemática da mulher com a comida é antiga pois aparece historicamente como mais um meio de controle patriarcal. Bordo (1997) menciona o trabalho de Helena Michie, que examina as representações do século XIX sobre mulheres, apetite e alimentação. Michie relaciona o padrão feminino de comer com a sexualidade feminina, de maneira que o primeiro serve como representação do segundo dentro dos moldes culturais. Por conseguinte, uma mulher comendo implicaria numa conotação sexual, segundo a autora:

O “‘tabu representacional’ do romance vitoriano de não se referir a mulheres comendo (aparentemente, uma atividade que só ‘acontece nos bastidores’, como diz Michie) funciona como código supressão da sexualidade feminina, seguindo a norma cultural exibida em manuais de etiqueta e sexo, que prescrevem à mulher bem-educada comer pouco e delicadamente.” (Michie, apud Bordo, p. 35-36)

Durante toda a peça Casa de boneca vemos Torvald regular o apetite de Nora por guloseimas. Nora, apaixonada por doces e em especial bolinhos de amêndoas (macaroons), é obrigada a consumi-los em segredo, escondido de Torvald, que a proíbe de come-los a fim de que ela possa manter sua forma elegante, desejável, ao lado de lindos dentes. Logo na primeira cena vemos Nora sendo reprimida por Torvald, ato que irá se repetir ao longo de toda a história:

HELMER– E eu não queria que fosse diferente do que é, minha doce cotovia. Mas olhando bem, você parece que… como eu posso dizer… tem um jeito… de quem fez alguma coisa que não devia…

NORA– Eu tenho?

HELMER– Tem. Olhe nos meus olhos, será que minha menina gulosa fez alguma travessura na cidade?

NORA– Não, como você pode pensar uma coisa dessas?

HELMER– A minha gulosa não deu mesmo uma passadinha na confeitaria?

NORA– Não, juro que não, Torvald.

HELMER– Não deu uma lambidinha num pote de geléia?

NORA– De jeito nenhum.

HELMER– Nem uma mordidinha num biscoitinho ou dois de amêndoas.

NORA– Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que lhe desagradasse. (Schøllhammer e Freire-Filho, 2008, p. 4)

 

De maneira que o corpo feminino de Nora para Torvald também é um local de controle e sujeição; é um corpo permanentemente disciplinado, assim como são os corpos femininos até hoje. Vemos Nora ser tratada como criança levando broncas por comer doces, mas podemos também entender o ato de comer escondido como uma das indicações de um diálogo interno da personagem. Ela, não deixa de comer os doces que tanto gosta porque seu marido a proíbe, da mesma maneira que ela não deixa de falsificar uma assinatura, pegar um empréstimo ou trabalhar escondido, todos são atos que conferem a personagem força e voz interna tanto para que ela possa fazer suas próprias escolhas mesmo que em segredo, quanto para que ela possa ter uma tomada de consciência na última cena.

Bordo fala da histeria como reação, como protesto inconsciente à opressão que as mulheres viviam na virada do século XIX, quando o ideal de mulher ainda era construído por escrito, através da literatura, dramaturgia, críticas, revistas, etc… por meio das palavras dos homens. À histeria, Bordo soma ainda a agorafobia e a anorexia como protestos inconscientes, doenças que apareceram com mais força já na segunda metade do século XX e aponta como uma possível causa a intensificação de ideais estéticos do feminino que oprimem as mulheres junto com as cobranças de uma mulher independente, na busca da igualdade ao homem. A autora indica a tecnologia como o grande meio pelo qual a mulher é oprimida, e aborda a dificuldade das mulheres no mundo contemporâneo das imagens, internet, televisão que continuam fragilizando as mesmas, pois é através destas tecnologias que a imagem da mulher — a mulher como imagem — é constantemente produzida e reproduzida, tornando-se as principais fontes produtoras de cultura.

Com o advento do cinema e da televisão, as normas da feminidade passaram cada vez mais a ser transmitidas culturalmente através do desfile de imagens visuais padronizadas. Como resultado, a feminidade em si tornou-se largamente uma questão de interpretação, ou tal como colocou Erving Goffman, a representação exterior adequada do ser. Não nos dizem mais como é “uma dama” ou em que consiste a feminidade. Em vez disso, ficamos sabendo das regras diretamente através do discurso do corpo: por meio de imagens que nos dizem que roupas, configuração do corpo, expressão facial, movimentos e comportamentos são exigidos. (Bordo, 1997, p. 24)

 

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Nas três desordens vemos aparecer um corpo reativo à tentativa de controle por um “corpo dócil”:

A sintomatologia dessas desordens revela-se como textualidade. A perda da mobilidade e da voz, a incapacidade de sair de casa, a tendência a alimentar outros enquanto se morre de fome, de ocupar espaço ou reduzir gradualmente aquele que o corpo ocupa — todas têm significado simbólico, todas têm significado político dentro das normas variáveis que governam a construção histórica do gênero. Penetrando nessa estrutura, vemos que, olhando a histeria, a agorafobia ou a anorexia, encontramos o corpo de quem sofre profundamente marcado por uma construção ideológica da feminidade típica dos períodos em questão. Naturalmente, essa construção está sempre homogeneizando e normalizando, tentando suprimir as diferenças de raça, classe e outras, insistindo para que todas as mulheres aspirem a um ideal coercitivo, padronizado. (Bordo, 1997, p. 23)

 

 

Hoje a histeria já não tem o mesmo espaço, na verdade virou gíria, termo corriqueiro ligado à perda de controle, sempre em relação à reações femininas. O que temos são os transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. E mesmo que muitas mulheres não apresentem essas desordens, elas permanecem latentes na rotina de uma mulher, que transita do espelho à televisão, ao cinema, à revista, à sala de ginástica, da balança à dieta.

Ao mesmo tempo que continuam sendo ensinadas às mulheres jovens “em ascensão”, as virtudes tradicionalmente “femininas”, na medida em que elas penetram em áreas profissionais, também precisam aprender a incorporar a linguagem e os valores “masculinos” desse âmbito — autocontrole, determinação, calma, disciplina emocional, domínio etc. Os corpos femininos falam agora dessa necessidade em sua configuração corpórea reduzida, enxuta, e no uso de roupa mais próxima da masculina, em moda atualmente. Nossos corpos, quando nos arrastamos todos os dias para a ginástica e resistimos ferozmente às nossas fomes e aos nossos desejos de gratificar e mimar a nós mesmas, também estão se tornando cada vez mais habituados com as virtudes “masculinas” de controle e autodomínio. As anoréxicas as perseguem com dedicação ingénua, inabalável. (Bordo, 1997, p. 26)

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Os distúrbios alimentares, principalmente a anorexia, tornam-se um meio pelo qual uma mulher oprimida e desorientada dentro de tantas cobranças estéticas e emocionais tenta dar conta das mesmas. O não comer é tanto um caminho para magreza, quanto um caminho para sentir-se no controle, no poder, mais próxima das características esperadas de uma mulher quando ela entra num local de trabalho predominantemente masculino. Bordo comenta que a mulher não só emagrece, mas junto com perda do peso, ela perde também a sua figura feminina, seios, bunda, coxas, aproximando-se do físico masculino mais reto e não curvilíneo.

Na busca pela esbeltez e na negação do apetite, a construção tradicional da feminidade cruza com a nova exigência para as mulheres de incorporar os valores “masculinos” da área pública. Como já indiquei, a anoréxica incorpora esse cruzamento, esse modelo híbrido, de maneira particularmente dolorosa e vivida.” Enfrenta um duplo elo ou dilema insolúvel. A “masculinidade” e a “feminidade”, pelo menos desde o século XIX e talvez antes, foram construídas através de um processo de mútua exclusão. Não se pode simplesmente juntar as virtudes historicamente femininas àquelas historicamente masculinas para produzir uma “nova mulher”, um “novo homem”, uma nova ética ou uma nova cultura. (Bordo, 1997, p. 26-27)

A escolha pelo jejum representa um ato de controle, convicção e domínio sobre a própria vida e também a morte. Por meio do ato de dizer não, de fechar a boca quando todos, família, médicos e marido estão implorando para que a mesma mastigue e coma. Para Bordo, um ato de protesto inconsciente contra toda a opressão que a mulher contemporânea tem sido exposta:

A anoréxica está engajada numa “greve de fome”, como diz Ohrbach, realçando esse fato como um discurso político no qual a ação de recusar comida e a dramática transformação do tamanho do corpo “exprimem corporalmente o que a pessoa é incapaz de nos dizer com palavras” — sua acusação a uma cultura que despreza e suprime a fome feminina, torna as mulheres envergonhadas de seus apetites e suas necessidades e exige delas um trabalho constante de transformação de seus corpos. (Bordo, 1997, p. 28)

Bordo discute ainda, a partir de uma perspectiva histórica, a relação da mulher com a comida, isto é, a mulher como aquela que alimenta o outro, que cuida, e não a que come. Ela relembra um comercial de chocolate, dos anos 80, em que uma mulher cuidou dos outros e no final do dia ela se dá de presente um único pedacinho como recompensa, para que não precise comer com culpa. Estamos em 2015 e a culpa permanece intacta quando entramos no tema mulher/corpo/alimentação. O ensaio de Bordo, permite-nos ter um olhar mais próximo da mulher contemporânea, esmagada por ideais que não são seus, e assim perceber que além da constante necessidade de teorias críticas como as de Judith Butler, precisamos urgentemente que esses pensamentos alcancem aqueles que estão distantes da academia e próximos demais da televisão e internet.

 

Referência Bibliográfica:

BORDO, Susan. O Corpo e a Reprodução da Feminidade: Uma Apropriação Feminista de Foucault. In: JAGGAR, Alison M; BORDO, Susan. (org). Gênero, Corpo, Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. P. 19-41.

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O CORPO E A REPRODUÇÃO DA FEMINIDADE- UMA APROPRIAÇÃO FEMINISTA DE FOUCAULT Susan Bordo.pdf
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Sobre o início ou tentativa 1

Minha relação com a Nora começou em 2007 ao ler pela primeira vez a peça Casa de Bonecas de Henrik Ibsen. Lia a última cena e vibrava junto com a personagem que escolhia mudar a própria vida. Eu chorava de emoção (não estou exagerando) com a lucidez da Nora ao entender a importância e urgência de seu auto-conhecimento. Antes de qualquer nome ou função, antes da esposa, da mãe, até da “mulher”, ela precisava se perceber como pessoa, que sente, pensa, escolhe, faz, fala. De alguma forma tudo aquilo que ela falava para Torvald (seu marido) dizia respeito a mim. Fazia um ano que tinha terminado o maior relacionamento amoroso da minha vida até então, e me encontrava num momento de libertação, principalmente num momento de encontro comigo mesma. Pra a falar verdade, foi o meu primeiro encontro comigo mesma (aos 26 anos).

Quando eu ouvi a batida da porta no final da peçadigo ouvi, porque a sensação é de que ouvi mesmo uma batida concreta, seca; uma batida de transição, transgressão e vida, – eu junto com a Nora, estava batendo a minha porta. Nossas transgressões não eram as mesmas, afinal eu não estava deixando marido e filhos em busca de mim mesma. Na verdade tinha sido deixada, por quem eu acreditava um ano antes ser o amor na minha vida, ser a minha completude, acho que até minha salvação. Completude??? Salvação??? Aquela minha relação era a minha fuga de mim mesma. Lembro que dizia pra mim: “Pronto, agora tá tudo certo, não preciso mais olhar pra ninguém, não preciso mais me preocupar. Durante quase quatro anos escolhi sentar no banco da passageira. Achava lindo me definir pela pessoa que havia escolhido para viver o resto da minha vida. Achava lindo um casamento que um se definia pelo outro, um era a metade do outro, uma era a companhia do outro. E no meu caso então, era uma pessoa que eu admirava muito, que achava brilhante, e de alguma maneira eu sentia que tudo aquilo que essa pessoa tinha de especial me pertencia em algum grau, e assim eu também me sentia especial.

Do dia em que fui terminada, digo terminada porque fui mesmo, foi contra a minha vontade, contra meus planos e meu futuro já pré-definido e pré-vivido. Fui terminada, quebrada em pedaços, me senti desfeita, apagada, sem sentido. Falava em querer ser atropelada, estuprada, violentada, na esperança de sentir menos dor. Desse diado dia em que me vi sozinha até o dia em que encontrei Nora, a vida aconteceu, eu aconteci. Aos poucos fui descobrindo as minhas qualidades, os meus prazeres, gostos, a alegria de ser eu, coisa que juro nunca tinha sentido, mesmo. Vivemos num mundo muito duro que nos oprime, e ao ver o encontro de Nora com ela mesma, simultaneamente ao meu encontro comigo mesma, me senti instantaneamente uma Nora. A sensação era de que eu estava subindo o alto de uma montanha e fincando uma bandeira, me senti heroína de mim mesma. É claro que essa sensação passou, até porque a gente finca a bandeira e a vida continua. Eu com meus 26, 27 anos achava que tinha chegado em algum lugar. Tolinha.

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Quase dez anos depois, agora com 36, com alguns encontros e desencontros vividos comigo mesma, Nora e eu continuamos firme e forte. Nesse tempo escrevi 10 cenas, fiz leituras, entrevistei mulheres com a minha prima Fernanda Polacow, li Simone de Beauvoir, achei que poderia me tornar uma Mulher Desiludida”, fui de mochilão para Amazônia sem rumo certo, me apaixonei por Virgina Woolf e pelo livro da Clarissa Pinkola Estes Mulheres Que Correm Com Os Lobos, apresentei a minhaNora numa performance, me apaixonei de novo, casei, adotei uma cachorra (a Xirley), escrevi uma monografia, dirigi e apresentei uma pesquisa cênica, me formei… Calma aí, para tudo! Preciso falar do momento logo antes do início da monografia e da pesquisa cênica.

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Voltemos ao segundo semestre de 2014: Tinha certeza que queria falar do encontro da Nora e do encontro das mulheres com o próprio feminino. Já quase sendo jubilada da UNIRIO (14 períodos em 9 anos), decidi que minha monografia seria a continuação da minha paixão: convidei a Nora para a pesquisa e convidei também a Ana Bernstein para me orientar. E essas duas escolhas me fizeram entender porque eu levei 17 anos para me formar – fora os períodos da UNIRIO foram + 5 na Univercidade + 2 na Estácio + 5 na Universidade da Flórida. Ufa! Até hoje tenho dificuldade de acreditar que não sou mais estudante de graduação, minha carteirinha já já vai vencer.

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No primeiro encontro entre orientanda e orientadora (muita emoção e medo nesse dia), a Ana questionou e desconstruiu tudo o que eu estava propondo, saí de lá desnorteada. Como disse acima, queria falar do feminino, desse encontro com a mulher loba, com a terra, com a lua, com o útero, o ventre, o sagrado feminino, etc… Em questões de minutos ela me deixou sem palavras. Pra quem não me conhece, é difícil me deixar sem palavras, eu tenho o péssimo hábito de falar muito, mesmo quando eu não sei direito, fico querendo emitir minha opinião, tolices de uma mulher de 36 anos ainda bem imatura, mas estou no caminho. Enfim… fiquei sem palavras. Lembro que eu falava com convicção: “… mas porque a mulher é mais sensível, blá, blá, blá” e ela “Por que a mulher é mais sensível?”, eu Porque é uma questão da natureza” e ela “É mesmo?. A conversa seguiu essa linha até eu calar a boca e entender que precisava começar a me informar um pouco mais antes de falar. Quero ressaltar aqui a generosidade da Ana em apenas levantar as questões e não sair me dizendo que eu estava errada por causa disso ou por causa daquilo. Ela não defendeu ideias, não quis me mostrar o que eu devia pensar, mas que eu devia pensar. Coisa que também preciso aprender a fazer, porque eu estou sempre defendendo ideias, ao invés de levantar questões. Mas isso não importa agora, o que importa é que daquele momento em diante ela me orientou, me apresentou pensamentos, artistas, autoras, autores que me deram um nó, nó esse que continuo tentando desemaranhar. E isso é lindo, e isso é bom, e isso é vida.

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Vídeo
Série auto-retrato – 1998 – Melhor Amiga

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Ano passado, o processo da pesquisa e estudo foi um momento de desencontro comigo mesma, um desencontro de uma eu, que eu achava que era fixa, que era forte, que era crítica, que conseguia ter um olhar de fora, que sabia de alguma coisa. Ano passado me perdi de mim mesma, perdi minhas referências, comecei a questionar todos os meus gostos, meu comportamento, minha criação, e foi impressionante como me vi presa num negócio muito pegajoso, grudento que não sai de jeito nenhum (mais tarde vou chamar isso também de patriarcado). As minhas roupas; a minha relação com meu cabelo, com meu corpo; a bulimia que tive dos 17 aos 20; a vergonha de falar com pessoas que eu considero mais importantes que eu; a minha incapacidade de sair de um padrão; o medo de sair da regra, de chamar atenção; a minha constante fuga atrás da minha aparência de menina; o fato de crescer achando que eu era a princesa do meu pai, na verdade ainda achar que eu sou a princesa do meu pai; ter tido rosa como a cor preferida a vida toda e ter achado que isso era uma transgressão; o complexo com a minha orelha na infância; o complexo com a minha altura a vida toda; o complexo comigo mesma; o constante medo de engordar, de envelhecer; o meu corpo dócil despontencializado, servindo a tudo que não eu. Agora percebo que o mesmo medo de me tornar invisível com a idade – sim na nossa cultura mulheres depois de uma certa idade tornam-se invisíveis – esse medo de me tornar invisível, é o que na verdade me mantém na invisibilidade e me faz colar no todo, no outro, no correto, no aceitável, no belo, no padrão, no sistema, no fora que me enfraquece, me fragiliza, me violenta.

 

Nora, tanto a personagem, quanto essa pesquisa, são para mim uma fonte inesgotável de questionamentos e inquietudes. Eu começo a escrevere quando vejo já fui para um lado, já fui para o outro e não cheguei nem perto do fundo. Continuo na beirada.

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Eu ia contar um pouco sobre o processo da
Nora, sobre a oportunidade de poder estender o processo de pesquisa com a ajuda do Viva a Cultura!, ia também falar que tipo de coisas postaremos nesse blog. Porém, são muitas coisas, muito afeto, muitas transformações e desafios, e como vocês já perceberam tenho bastante dificuldade em ser objetiva, quando vejo já foi. Mas como é um blog e o mesmo precisa ser alimentado toda semana, o que não vai faltar é oportunidade pra continuar, e pra falar de outras coisas e assuntos. Não se preocupem, não será o meu querido diário”. Eu prometo!

Na primeira frase lá em cima já deixei bem claro, esse será um espaço de compartilhamento da criação, então veremos aqui não só a minha voz mas as de todxs xs participantes, seja em vídeo, áudio, escrita, desenho, etc…: Cida de Souza, Duda Maia, Elisa Faulhaber, Joana Lerner, Leandro Romano, Lilia Wodraschka, Luiz André Alvim, Maíra Kestenberg, Manoela Campos, Natasha Melman, Priscila Assum e Renata Ravani, Valéria Martins, João Polessa, terão presenças diretas ou indiretas nesse espaço que é para mim especial e que nasce hoje, nasce agora.

E a Nora continua viva e forte e inspiradora depois de bater a porta!

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