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Distúrbios alimentares: uma nova histeria?

Escrito por Diana Herzog,

O ensaio de Susan Bordo utilizado na discussão sobre Nora e a histeria tem como proposta analisar o corpo feminino a partir de doenças tipicamente femininas. A autora considera distúrbios alimentares como a doença feminina contemporânea, o que não quer dizer que não houvesse anorexia anteriormente, fato que ela mesma comenta. A relação problemática da mulher com a comida é antiga pois aparece historicamente como mais um meio de controle patriarcal. Bordo (1997) menciona o trabalho de Helena Michie, que examina as representações do século XIX sobre mulheres, apetite e alimentação. Michie relaciona o padrão feminino de comer com a sexualidade feminina, de maneira que o primeiro serve como representação do segundo dentro dos moldes culturais. Por conseguinte, uma mulher comendo implicaria numa conotação sexual, segundo a autora:

O “‘tabu representacional’ do romance vitoriano de não se referir a mulheres comendo (aparentemente, uma atividade que só ‘acontece nos bastidores’, como diz Michie) funciona como código supressão da sexualidade feminina, seguindo a norma cultural exibida em manuais de etiqueta e sexo, que prescrevem à mulher bem-educada comer pouco e delicadamente.” (Michie, apud Bordo, p. 35-36)

Durante toda a peça Casa de boneca vemos Torvald regular o apetite de Nora por guloseimas. Nora, apaixonada por doces e em especial bolinhos de amêndoas (macaroons), é obrigada a consumi-los em segredo, escondido de Torvald, que a proíbe de come-los a fim de que ela possa manter sua forma elegante, desejável, ao lado de lindos dentes. Logo na primeira cena vemos Nora sendo reprimida por Torvald, ato que irá se repetir ao longo de toda a história:

HELMER– E eu não queria que fosse diferente do que é, minha doce cotovia. Mas olhando bem, você parece que… como eu posso dizer… tem um jeito… de quem fez alguma coisa que não devia…

NORA– Eu tenho?

HELMER– Tem. Olhe nos meus olhos, será que minha menina gulosa fez alguma travessura na cidade?

NORA– Não, como você pode pensar uma coisa dessas?

HELMER– A minha gulosa não deu mesmo uma passadinha na confeitaria?

NORA– Não, juro que não, Torvald.

HELMER– Não deu uma lambidinha num pote de geléia?

NORA– De jeito nenhum.

HELMER– Nem uma mordidinha num biscoitinho ou dois de amêndoas.

NORA– Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que lhe desagradasse. (Schøllhammer e Freire-Filho, 2008, p. 4)

 

De maneira que o corpo feminino de Nora para Torvald também é um local de controle e sujeição; é um corpo permanentemente disciplinado, assim como são os corpos femininos até hoje. Vemos Nora ser tratada como criança levando broncas por comer doces, mas podemos também entender o ato de comer escondido como uma das indicações de um diálogo interno da personagem. Ela, não deixa de comer os doces que tanto gosta porque seu marido a proíbe, da mesma maneira que ela não deixa de falsificar uma assinatura, pegar um empréstimo ou trabalhar escondido, todos são atos que conferem a personagem força e voz interna tanto para que ela possa fazer suas próprias escolhas mesmo que em segredo, quanto para que ela possa ter uma tomada de consciência na última cena.

Bordo fala da histeria como reação, como protesto inconsciente à opressão que as mulheres viviam na virada do século XIX, quando o ideal de mulher ainda era construído por escrito, através da literatura, dramaturgia, críticas, revistas, etc… por meio das palavras dos homens. À histeria, Bordo soma ainda a agorafobia e a anorexia como protestos inconscientes, doenças que apareceram com mais força já na segunda metade do século XX e aponta como uma possível causa a intensificação de ideais estéticos do feminino que oprimem as mulheres junto com as cobranças de uma mulher independente, na busca da igualdade ao homem. A autora indica a tecnologia como o grande meio pelo qual a mulher é oprimida, e aborda a dificuldade das mulheres no mundo contemporâneo das imagens, internet, televisão que continuam fragilizando as mesmas, pois é através destas tecnologias que a imagem da mulher — a mulher como imagem — é constantemente produzida e reproduzida, tornando-se as principais fontes produtoras de cultura.

Com o advento do cinema e da televisão, as normas da feminidade passaram cada vez mais a ser transmitidas culturalmente através do desfile de imagens visuais padronizadas. Como resultado, a feminidade em si tornou-se largamente uma questão de interpretação, ou tal como colocou Erving Goffman, a representação exterior adequada do ser. Não nos dizem mais como é “uma dama” ou em que consiste a feminidade. Em vez disso, ficamos sabendo das regras diretamente através do discurso do corpo: por meio de imagens que nos dizem que roupas, configuração do corpo, expressão facial, movimentos e comportamentos são exigidos. (Bordo, 1997, p. 24)

 

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Nas três desordens vemos aparecer um corpo reativo à tentativa de controle por um “corpo dócil”:

A sintomatologia dessas desordens revela-se como textualidade. A perda da mobilidade e da voz, a incapacidade de sair de casa, a tendência a alimentar outros enquanto se morre de fome, de ocupar espaço ou reduzir gradualmente aquele que o corpo ocupa — todas têm significado simbólico, todas têm significado político dentro das normas variáveis que governam a construção histórica do gênero. Penetrando nessa estrutura, vemos que, olhando a histeria, a agorafobia ou a anorexia, encontramos o corpo de quem sofre profundamente marcado por uma construção ideológica da feminidade típica dos períodos em questão. Naturalmente, essa construção está sempre homogeneizando e normalizando, tentando suprimir as diferenças de raça, classe e outras, insistindo para que todas as mulheres aspirem a um ideal coercitivo, padronizado. (Bordo, 1997, p. 23)

 

 

Hoje a histeria já não tem o mesmo espaço, na verdade virou gíria, termo corriqueiro ligado à perda de controle, sempre em relação à reações femininas. O que temos são os transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. E mesmo que muitas mulheres não apresentem essas desordens, elas permanecem latentes na rotina de uma mulher, que transita do espelho à televisão, ao cinema, à revista, à sala de ginástica, da balança à dieta.

Ao mesmo tempo que continuam sendo ensinadas às mulheres jovens “em ascensão”, as virtudes tradicionalmente “femininas”, na medida em que elas penetram em áreas profissionais, também precisam aprender a incorporar a linguagem e os valores “masculinos” desse âmbito — autocontrole, determinação, calma, disciplina emocional, domínio etc. Os corpos femininos falam agora dessa necessidade em sua configuração corpórea reduzida, enxuta, e no uso de roupa mais próxima da masculina, em moda atualmente. Nossos corpos, quando nos arrastamos todos os dias para a ginástica e resistimos ferozmente às nossas fomes e aos nossos desejos de gratificar e mimar a nós mesmas, também estão se tornando cada vez mais habituados com as virtudes “masculinas” de controle e autodomínio. As anoréxicas as perseguem com dedicação ingénua, inabalável. (Bordo, 1997, p. 26)

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Os distúrbios alimentares, principalmente a anorexia, tornam-se um meio pelo qual uma mulher oprimida e desorientada dentro de tantas cobranças estéticas e emocionais tenta dar conta das mesmas. O não comer é tanto um caminho para magreza, quanto um caminho para sentir-se no controle, no poder, mais próxima das características esperadas de uma mulher quando ela entra num local de trabalho predominantemente masculino. Bordo comenta que a mulher não só emagrece, mas junto com perda do peso, ela perde também a sua figura feminina, seios, bunda, coxas, aproximando-se do físico masculino mais reto e não curvilíneo.

Na busca pela esbeltez e na negação do apetite, a construção tradicional da feminidade cruza com a nova exigência para as mulheres de incorporar os valores “masculinos” da área pública. Como já indiquei, a anoréxica incorpora esse cruzamento, esse modelo híbrido, de maneira particularmente dolorosa e vivida.” Enfrenta um duplo elo ou dilema insolúvel. A “masculinidade” e a “feminidade”, pelo menos desde o século XIX e talvez antes, foram construídas através de um processo de mútua exclusão. Não se pode simplesmente juntar as virtudes historicamente femininas àquelas historicamente masculinas para produzir uma “nova mulher”, um “novo homem”, uma nova ética ou uma nova cultura. (Bordo, 1997, p. 26-27)

A escolha pelo jejum representa um ato de controle, convicção e domínio sobre a própria vida e também a morte. Por meio do ato de dizer não, de fechar a boca quando todos, família, médicos e marido estão implorando para que a mesma mastigue e coma. Para Bordo, um ato de protesto inconsciente contra toda a opressão que a mulher contemporânea tem sido exposta:

A anoréxica está engajada numa “greve de fome”, como diz Ohrbach, realçando esse fato como um discurso político no qual a ação de recusar comida e a dramática transformação do tamanho do corpo “exprimem corporalmente o que a pessoa é incapaz de nos dizer com palavras” — sua acusação a uma cultura que despreza e suprime a fome feminina, torna as mulheres envergonhadas de seus apetites e suas necessidades e exige delas um trabalho constante de transformação de seus corpos. (Bordo, 1997, p. 28)

Bordo discute ainda, a partir de uma perspectiva histórica, a relação da mulher com a comida, isto é, a mulher como aquela que alimenta o outro, que cuida, e não a que come. Ela relembra um comercial de chocolate, dos anos 80, em que uma mulher cuidou dos outros e no final do dia ela se dá de presente um único pedacinho como recompensa, para que não precise comer com culpa. Estamos em 2015 e a culpa permanece intacta quando entramos no tema mulher/corpo/alimentação. O ensaio de Bordo, permite-nos ter um olhar mais próximo da mulher contemporânea, esmagada por ideais que não são seus, e assim perceber que além da constante necessidade de teorias críticas como as de Judith Butler, precisamos urgentemente que esses pensamentos alcancem aqueles que estão distantes da academia e próximos demais da televisão e internet.

 

Referência Bibliográfica:

BORDO, Susan. O Corpo e a Reprodução da Feminidade: Uma Apropriação Feminista de Foucault. In: JAGGAR, Alison M; BORDO, Susan. (org). Gênero, Corpo, Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. P. 19-41.

Para baixar o PDF do texto, clique no link abaixo
O CORPO E A REPRODUÇÃO DA FEMINIDADE- UMA APROPRIAÇÃO FEMINISTA DE FOUCAULT Susan Bordo.pdf
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Diana Herzog

Autora do projeto

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