nora full

Sobre o início ou tentativa 1

Minha relação com a Nora começou em 2007 ao ler pela primeira vez a peça Casa de Bonecas de Henrik Ibsen. Lia a última cena e vibrava junto com a personagem que escolhia mudar a própria vida. Eu chorava de emoção (não estou exagerando) com a lucidez da Nora ao entender a importância e urgência de seu auto-conhecimento. Antes de qualquer nome ou função, antes da esposa, da mãe, até da “mulher”, ela precisava se perceber como pessoa, que sente, pensa, escolhe, faz, fala. De alguma forma tudo aquilo que ela falava para Torvald (seu marido) dizia respeito a mim. Fazia um ano que tinha terminado o maior relacionamento amoroso da minha vida até então, e me encontrava num momento de libertação, principalmente num momento de encontro comigo mesma. Pra a falar verdade, foi o meu primeiro encontro comigo mesma (aos 26 anos).

Quando eu ouvi a batida da porta no final da peçadigo ouvi, porque a sensação é de que ouvi mesmo uma batida concreta, seca; uma batida de transição, transgressão e vida, – eu junto com a Nora, estava batendo a minha porta. Nossas transgressões não eram as mesmas, afinal eu não estava deixando marido e filhos em busca de mim mesma. Na verdade tinha sido deixada, por quem eu acreditava um ano antes ser o amor na minha vida, ser a minha completude, acho que até minha salvação. Completude??? Salvação??? Aquela minha relação era a minha fuga de mim mesma. Lembro que dizia pra mim: “Pronto, agora tá tudo certo, não preciso mais olhar pra ninguém, não preciso mais me preocupar. Durante quase quatro anos escolhi sentar no banco da passageira. Achava lindo me definir pela pessoa que havia escolhido para viver o resto da minha vida. Achava lindo um casamento que um se definia pelo outro, um era a metade do outro, uma era a companhia do outro. E no meu caso então, era uma pessoa que eu admirava muito, que achava brilhante, e de alguma maneira eu sentia que tudo aquilo que essa pessoa tinha de especial me pertencia em algum grau, e assim eu também me sentia especial.

Do dia em que fui terminada, digo terminada porque fui mesmo, foi contra a minha vontade, contra meus planos e meu futuro já pré-definido e pré-vivido. Fui terminada, quebrada em pedaços, me senti desfeita, apagada, sem sentido. Falava em querer ser atropelada, estuprada, violentada, na esperança de sentir menos dor. Desse diado dia em que me vi sozinha até o dia em que encontrei Nora, a vida aconteceu, eu aconteci. Aos poucos fui descobrindo as minhas qualidades, os meus prazeres, gostos, a alegria de ser eu, coisa que juro nunca tinha sentido, mesmo. Vivemos num mundo muito duro que nos oprime, e ao ver o encontro de Nora com ela mesma, simultaneamente ao meu encontro comigo mesma, me senti instantaneamente uma Nora. A sensação era de que eu estava subindo o alto de uma montanha e fincando uma bandeira, me senti heroína de mim mesma. É claro que essa sensação passou, até porque a gente finca a bandeira e a vida continua. Eu com meus 26, 27 anos achava que tinha chegado em algum lugar. Tolinha.

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Quase dez anos depois, agora com 36, com alguns encontros e desencontros vividos comigo mesma, Nora e eu continuamos firme e forte. Nesse tempo escrevi 10 cenas, fiz leituras, entrevistei mulheres com a minha prima Fernanda Polacow, li Simone de Beauvoir, achei que poderia me tornar uma Mulher Desiludida”, fui de mochilão para Amazônia sem rumo certo, me apaixonei por Virgina Woolf e pelo livro da Clarissa Pinkola Estes Mulheres Que Correm Com Os Lobos, apresentei a minhaNora numa performance, me apaixonei de novo, casei, adotei uma cachorra (a Xirley), escrevi uma monografia, dirigi e apresentei uma pesquisa cênica, me formei… Calma aí, para tudo! Preciso falar do momento logo antes do início da monografia e da pesquisa cênica.

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Voltemos ao segundo semestre de 2014: Tinha certeza que queria falar do encontro da Nora e do encontro das mulheres com o próprio feminino. Já quase sendo jubilada da UNIRIO (14 períodos em 9 anos), decidi que minha monografia seria a continuação da minha paixão: convidei a Nora para a pesquisa e convidei também a Ana Bernstein para me orientar. E essas duas escolhas me fizeram entender porque eu levei 17 anos para me formar – fora os períodos da UNIRIO foram + 5 na Univercidade + 2 na Estácio + 5 na Universidade da Flórida. Ufa! Até hoje tenho dificuldade de acreditar que não sou mais estudante de graduação, minha carteirinha já já vai vencer.

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No primeiro encontro entre orientanda e orientadora (muita emoção e medo nesse dia), a Ana questionou e desconstruiu tudo o que eu estava propondo, saí de lá desnorteada. Como disse acima, queria falar do feminino, desse encontro com a mulher loba, com a terra, com a lua, com o útero, o ventre, o sagrado feminino, etc… Em questões de minutos ela me deixou sem palavras. Pra quem não me conhece, é difícil me deixar sem palavras, eu tenho o péssimo hábito de falar muito, mesmo quando eu não sei direito, fico querendo emitir minha opinião, tolices de uma mulher de 36 anos ainda bem imatura, mas estou no caminho. Enfim… fiquei sem palavras. Lembro que eu falava com convicção: “… mas porque a mulher é mais sensível, blá, blá, blá” e ela “Por que a mulher é mais sensível?”, eu Porque é uma questão da natureza” e ela “É mesmo?. A conversa seguiu essa linha até eu calar a boca e entender que precisava começar a me informar um pouco mais antes de falar. Quero ressaltar aqui a generosidade da Ana em apenas levantar as questões e não sair me dizendo que eu estava errada por causa disso ou por causa daquilo. Ela não defendeu ideias, não quis me mostrar o que eu devia pensar, mas que eu devia pensar. Coisa que também preciso aprender a fazer, porque eu estou sempre defendendo ideias, ao invés de levantar questões. Mas isso não importa agora, o que importa é que daquele momento em diante ela me orientou, me apresentou pensamentos, artistas, autoras, autores que me deram um nó, nó esse que continuo tentando desemaranhar. E isso é lindo, e isso é bom, e isso é vida.

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Vídeo
Série auto-retrato – 1998 – Melhor Amiga

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Ano passado, o processo da pesquisa e estudo foi um momento de desencontro comigo mesma, um desencontro de uma eu, que eu achava que era fixa, que era forte, que era crítica, que conseguia ter um olhar de fora, que sabia de alguma coisa. Ano passado me perdi de mim mesma, perdi minhas referências, comecei a questionar todos os meus gostos, meu comportamento, minha criação, e foi impressionante como me vi presa num negócio muito pegajoso, grudento que não sai de jeito nenhum (mais tarde vou chamar isso também de patriarcado). As minhas roupas; a minha relação com meu cabelo, com meu corpo; a bulimia que tive dos 17 aos 20; a vergonha de falar com pessoas que eu considero mais importantes que eu; a minha incapacidade de sair de um padrão; o medo de sair da regra, de chamar atenção; a minha constante fuga atrás da minha aparência de menina; o fato de crescer achando que eu era a princesa do meu pai, na verdade ainda achar que eu sou a princesa do meu pai; ter tido rosa como a cor preferida a vida toda e ter achado que isso era uma transgressão; o complexo com a minha orelha na infância; o complexo com a minha altura a vida toda; o complexo comigo mesma; o constante medo de engordar, de envelhecer; o meu corpo dócil despontencializado, servindo a tudo que não eu. Agora percebo que o mesmo medo de me tornar invisível com a idade – sim na nossa cultura mulheres depois de uma certa idade tornam-se invisíveis – esse medo de me tornar invisível, é o que na verdade me mantém na invisibilidade e me faz colar no todo, no outro, no correto, no aceitável, no belo, no padrão, no sistema, no fora que me enfraquece, me fragiliza, me violenta.

 

Nora, tanto a personagem, quanto essa pesquisa, são para mim uma fonte inesgotável de questionamentos e inquietudes. Eu começo a escrevere quando vejo já fui para um lado, já fui para o outro e não cheguei nem perto do fundo. Continuo na beirada.

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Eu ia contar um pouco sobre o processo da
Nora, sobre a oportunidade de poder estender o processo de pesquisa com a ajuda do Viva a Cultura!, ia também falar que tipo de coisas postaremos nesse blog. Porém, são muitas coisas, muito afeto, muitas transformações e desafios, e como vocês já perceberam tenho bastante dificuldade em ser objetiva, quando vejo já foi. Mas como é um blog e o mesmo precisa ser alimentado toda semana, o que não vai faltar é oportunidade pra continuar, e pra falar de outras coisas e assuntos. Não se preocupem, não será o meu querido diário”. Eu prometo!

Na primeira frase lá em cima já deixei bem claro, esse será um espaço de compartilhamento da criação, então veremos aqui não só a minha voz mas as de todxs xs participantes, seja em vídeo, áudio, escrita, desenho, etc…: Cida de Souza, Duda Maia, Elisa Faulhaber, Joana Lerner, Leandro Romano, Lilia Wodraschka, Luiz André Alvim, Maíra Kestenberg, Manoela Campos, Natasha Melman, Priscila Assum e Renata Ravani, Valéria Martins, João Polessa, terão presenças diretas ou indiretas nesse espaço que é para mim especial e que nasce hoje, nasce agora.

E a Nora continua viva e forte e inspiradora depois de bater a porta!

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